Durante este ano, assinalarei aqui acontecimentos importantes do reinado de Dom Dinis, à medida que forem acontecendo os respetivos aniversários, assim como transcreverei excertos do meu romance sobre o Rei Lavrador.

30
Jan 16

Como se sabe, Dom Dinis teve várias amantes, entrou mesmo para a história como um rei dado às relações extra-conjugais, embora, na verdade, não tivesse mais barregãs do que seu pai e até menos filhos bastardos do que seu bisavô Sancho I. Porém, talvez por ser um rei poeta, ficou conhecido como mulherengo.

 

Deixo um pequeno excerto do meu romance relativo a um amor de juventude de Dom Dinis, ainda infante, com quinze anos:

 

Davam-se muitas liberdades aos dois. Maria Rodrigues era uma morena de braços roliços e peitos avantajados, que se fartava de suspirar aos ouvidos do jovem príncipe, fazendo-lhe festinhas nas madeixas macias cor de cobre. Dinis, que experimentava pela primeira vez os prazeres que carícias femininas despoletavam, aturava-lhe as coscuvilhices. A moça adorava pô-lo a par dos mexericos transmontanos: quem andava atrás de quem, quem intrigava contra quem e, acima de tudo, quem a invejava. Estalava de presunção, ao narrar como fulana se roera de inveja ao vê-la entrar na igreja de brial novo, ou que sicrana lhe cobiçava as rendas do enxoval. E, quando Dinis se dignava a acompanhá-la à missa ou a algum arraial, era quem a visse emproada, a agitar o abanico, pois aquela vaidade extrema causava-lhe calores, punha-lhe as faces em brasa.

 

publicado por Cristina Torrão às 11:57
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27
Jan 16

 

 

Faz hoje 709 anos que o bispo de Lisboa Dom João Martins de Soalhães, colaborador de Dom Dinis desde o início do reinado, reuniu um sínodo, procurando a formação do clero paroquial a fim de prestigiar o ministério. Igualmente se procurou promover o matrimónio religioso, erradicar a bigamia e inculcar a prática da confissão anual ao respetivo pároco.

 

A necessidade de reunir um sínodo, a fim de tratar destes assuntos, é elucidativa em relação a alguns costumes medievais portugueses, o que vem contradizer a imagem medieval de profundos hábitos religiosos e morais.

 

Na verdade, o povo estava ainda muito ligado a ritos pagãos. A Igreja tentava, desde o século XI, moralizar os costumes, mas só para o fim da Idade Média as práticas e os sacramentos se começaram a generalizar.

 

MulherIV.jpg

 Imagem Codex Manesse

publicado por Cristina Torrão às 11:05

25
Jan 16

Afonso X.jpg

D. Afonso X, o Sábio

 

Por parte de sua mãe, Dona Beatriz, Dom Dinis era neto de um dos reis mais importantes da Hispânia medieval: Dom Afonso X, o Sábio. Deixou, para a posteridade, importantes obras: compilações de leis escritas em castelhano e não em latim, como era costume; uma compilação de todos os jogos que se conheciam na altura (incluindo o xadrez) e, na sua qualidade de poeta, reuniu, nas Cantigas de Santa Maria, centenas de milagres da Virgem. Como vemos, Dom Dinis tinha a quem sair!

 

No meu romance, Dom Dinis, com apenas cinco anos, visita o avô, em Toledo, na companhia da mãe, da irmã Branca e do irmão Afonso. Aqui, um pequeno excerto dessa visita:

 

Dinis e Branca ouviram fascinados todas as sete estrofes da cantiga e, no fim, o príncipe não resistiu a perguntar:

- Como se fazem rimar as palavras?

- Isso é um mistério que só os poetas guisam conhecer.

Como o pequeno se mostrava desiludido com a resposta, o rei acrescentou:

- Se estás destinado a ser poeta, Deus te concederá o dom.

- E quanto tempo demora?

- Isso, ninguém te sabe dizer. Mas o tempo corre mais lesto do que crês, só hás mister de paciência.

- Paciência - ecoou Beatriz. - É qualidade que Dinis nunca possuirá!

- Não vos precipiteis com tais juízos, filha! - E, piscando novamente o olho ao neto: - Dinis surpreender-nos-á a todos!

 

publicado por Cristina Torrão às 11:37

21
Jan 16

 

 

Dinis e Isabel - Leiria.jpg

 

 

Estátuas de Dom Dinis e Dona Isabel em Leiria

 

 

 

 

A 21 de Janeiro de 1298, Dom Dinis fez de Dona Isabel tutora de três dos seus filhos bastardos - Pedro Afonso, Afonso Sanches e Fernando Sanches -, para o caso de morrer antes dela e da maioridade dos filhos. Li algures que tal atitude seria um abuso, só permitido pelas qualidades de santa da rainha. Na verdade, era comum os reis medievais terem filhos ilegítimos, perfeitamente aceites pelas rainhas, suas esposas.

 

Além disso, a vida conjugal de Dom Dinis e de Dona Isabel levanta várias interrogações. Apesar de terem estado mais de quarenta anos casados, só tiveram dois filhos, nascidos nos primeiros anos. Por outro lado, Dom Dinis teve sempre barregãs. Um indício de que não haveria vida conjugal entre o casal real? Teria Dona Isabel optado pelo celibato, considerando a sua missão cumprida, depois de ter dado à luz o príncipe herdeiro? Ou teria ficado infértil, devido a um parto difícil?

 

Perguntas que ficarão para sempre sem resposta.

publicado por Cristina Torrão às 11:02

15
Jan 16

 

 

Foi em Janeiro de 1307 (não se sabe o dia exato) que se fez o pedido de transferência, de Lisboa para Coimbra, do Estudo Geral das Ciências, percursor da Universidade.

 

O Estudo Geral tinha sido fundado em Agosto de 1290, em Lisboa, através da bula De Statu Regno Portugaliae, emitida pelo papa Nicolau II. Poucos anos depois, iniciaram-se conflitos com a Casa da Moeda em relação ao terreno que Dom Dinis doara para a construção do edifício, no Campo da Pedreira à Lapa, perto do Mosteiro de São Vicente de Fora. Também haveria conflitos entre os estudantes e a população de Lisboa, embora os motivos, tanto para uns, como para outros, não sejam hoje claros. No meu romance, esforcei-me por dar uma explicação plausível:

 

O Estudo Geral, porém, continuava a ser um problema bicudo. A contestação dos escolares aumentava, pois a Casa da Moeda instalara-se definitivamente naquele que havia sido o seu edifício e o rei ainda não conseguira disponibilizar os terrenos para a construção de um novo. As querelas descambavam, muitas vezes, em autênticas zaragatas, que se alargavam à população residente à volta do bairro dos estudantes. Estes, por seu turno, reclamavam do monarca a proteção especial que Nicolau IV lhes havia destinado. E Dinis ponderava a transferência do Estudo Geral. Custava-lhe afastá-lo de Lisboa, mas a situação tornava-se insustentável.

Considerava a hipótese de Coimbra. O Estudo Geral teria de se situar obrigatoriamente numa cidade, já que era o bispo quem concedia o grau de licenciado aos estudantes. Santarém e Leiria, por exemplo, não sendo assento episcopal, possuíam apenas o estatuto de vila. Em Portugal, havia apenas nove cidades, tantas, quantos os bispos: a Braga arquiepiscopal à cabeça, seguindo-se Lisboa, Coimbra, Porto, Lamego, Viseu, Guarda, Évora e Silves.

 

A transferência para Coimbra foi autorizada pelo papa Clemente V em 26 de Fevereiro de 1308. No entanto, a Universidade mudaria de local, sempre entre Lisboa e Coimbra, várias vezes, e só ficou definitivamente instalada junto ao Mondego muito depois da morte de Dom Dinis.

 

À altura da Fundação do Estudo Geral das Ciências de Lisboa, já existiam as Universidades de Paris, Oxford, Cambridge, Nápoles, Pádua, Montpellier e Salamanca, todas fundadas na primeira metade do século XIII. Bolonha, a mais antiga, foi fundada ainda no século XII.

 

Estátua D. Dinis Coimbra.jpgEstátua de Dom Dinis em Coimbra

publicado por Cristina Torrão às 10:57

12
Jan 16

 

 

Dom Dinis teve um neto com o seu nome, nascido a 12 de Janeiro de 1317.

 

«Estabeleceu-se uma acalmia no início do novo ano, ao dar-se um feliz acontecimento: Beatriz deu à luz mais um menino, a 12 de Janeiro, e o príncipe deu o nome de Dinis àquele filho. O rei disse a Isabel aquela ser a prova de que nada de grave sucederia. Afonso parecia cair em si, abstendo-se de continuar a hostilizar o pai, cumprindo enfim a tradição de dar ao seu herdeiro o nome do avô. Isabel, porém, pediu-lhe que não exagerasse na sua alegria e que não ignorasse os problemas existentes».

 

As desavenças entre o rei e o seu herdeiro Afonso, que desembocariam numa guerra civil, eram já graves, nesta altura. Dom Dinis parece ter tido muita esperança neste neto, que foi jurado como herdeiro do trono pelos concelhos do reino com apenas cinco meses (a 14 de Junho). Estaria Dom Dinis a pensar transmitir o trono diretamente ao neto, seu homónimo? 

 

«A 14 de Junho, Dinis deu mais uma vez azo à euforia que lhe provocara o nascimento do neto, ao exigir que os concelhos do reino jurassem o pequeno como herdeiro do trono. Uma atitude que, porém, caiu mal ao filho Afonso. A criança, de apenas cinco meses, não carecia de legitimidade, nem tão-pouco faltava ao reino um príncipe herdeiro adulto. Porque dava o soberano um sinal claro em relação ao neto, em vez de o fazer com o filho? Pretenderia ele passar por cima de Afonso?»

 

Porém, o pequeno infante Dinis morreu com cerca de um ano de idade. Era o segundo neto que lhe morria, depois de um outro chamado Afonso, nascido em 1315.

 

«Em Estremoz, Dinis recebeu a notícia da morte do neto que tinha o seu nome, nas vésperas do primeiro aniversário! Na sua desolação, a família real convencia-se de que Deus, por algum motivo, a castigava. Seria pelos diferendos entre os seus membros? O certo é que nem Isabel encontrava resposta para tanta calamidade e, em Fevereiro, Dinis resolveu ir em peregrinação a Santiago de Compostela.

Embora acompanhado de grande comitiva, incluindo os seus cavalos, o monarca andava muito a pé. Os prelados aconselhavam-no a assim fazer, pelo menos, metade do caminho.

(…)

O rei rezou longamente junto ao túmulo do apóstolo, pois bem tinha de lhe suplicar, novamente atacado pelo fantasma do rei velho e enfermo, abandonado por tudo e todos… E recordava que sua mãe o avisara de poder estar sujeito a destino semelhante. Desprezara o conselho, mas pedia agora ao santo que o livrasse de tal sina, permitindo-lhe ser rei até exalar o seu último suspiro, à semelhança de seu pai.

Suplicou paz para o reino… E um herdeiro para o filho! Porque já lhe levara Deus dois netos legítimos, não consentindo inclusive que o sucessor de Afonso tivesse o seu nome? Tanto se convencera de que aquele principezinho haveria de reinar um dia…

Ao pedir um herdeiro para o filho, suplicava igualmente que aquele possuísse mais bom senso do que Afonso, que se lhe assomava melancólico e rancoroso, rodeado de maus conselheiros. Que estava destinado ao reino de Portugal sob a regência de Dom Afonso IV? Por alguma razão, Dinis temia pela sua amada terra e, através do apóstolo, suplicava a Deus que lhe permitisse viver o suficiente, não só para assistir ao nascimento de um outro neto varão, como para ter oportunidade de se aperceber do carácter do pequeno. Desejava um príncipe mais alegre, mais aberto, mais dado aos prazeres e às belezas da vida».

 

Dos sete filhos do futuro Dom Afonso IV, apenas três atingiram a idade adulta: duas filhas, Maria e Leonor, e um filho que seria rei, Dom Pedro I, nascido a 8 de Abril de 1319, dois anos depois do pequeno Dinis.

 

Pedro I.jpg

Dom Pedro I, neto de Dom Dinis 

 

Nota: as passagens entre aspas são excertos do meu romance D. Dinis - a quem chamaram o Lavrador, a ser reeditado em breve.

 

publicado por Cristina Torrão às 10:52

08
Jan 16

 

 

Ourique Brasão.png

 

 

 

 

Imagem Wikipedia

 

 

 

 

 

Assinala-se hoje o 726º aniversário do foral de Ourique, outorgado por Dom Dinis.

 

 

publicado por Cristina Torrão às 11:36

07
Jan 16

 

 

Mal começo o ano dedicado ao Rei Lavrador, vejo-me obrigada a anunciar o aniversário da sua morte!

Dom Dinis faleceu a 7 de Janeiro de 1325, com sessenta e três anos, sendo aclamado seu filho Afonso IV rei de Portugal.

 

Dom Dinis teve um reinado preenchido e, dos quarenta e seis anos que reinou, cerca de quarenta foram felizes, pois o soberano estava, desde o início, perfeitamente vocacionado para a sua tarefa, sentindo-se, por assim dizer, como peixe na água.

Os últimos anos foram, porém, marcados pela guerra civil contra o seu próprio herdeiro, o que muito o amargurou e tanto desgastou, que o conflito bem pode ter acelerado a sua morte.

 

 

«Dinis andava estafado. As dores de cabeça e as tonturas aumentavam e ele emagrecia, pois muitas vezes se sentia enjoado ou, simplesmente, sem apetite. Mais do que os combates ferozes, era a guerra de nervos que o esgotava. Dinis tinha consciência de que a ansiedade permanente, aquele receio constante de ser derrotado pelo príncipe, estava a matá-lo. Quando lhe vinham dizer que os soldados de Afonso haviam ganho mais uma escaramuça e que seria cada vez mais difícil impedi-lo de entrar na cidade, o monarca só pedia a Deus que não o deixasse morrer derrotado e deposto, como o avô. Tornara-se rei com dezassete anos de idade, quase não se lembrava de não o ter sido. E pretendia sê-lo até ao fim».

 

In D. Dinis - a quem chamaram o Lavrador

 

 

Abstenho-me de referir mais pormenores, pois eles irão surgindo, à medida que vou desfiando o seu reinado, durante este ano.

 

Conforme sua vontade, Dom Dinis foi sepultado no mosteiro de Odivelas, mandado construir por ele próprio.

Imagem do Túmulo.jpg

 ©José Custódio Vieira da Silva

 

O estado degradado em que se encontra a sua sepultura, levou um grupo de cidadãos a criar uma página no Facebook, a fim de alertar quem de direito para a necessidade da sua recuperação. Se quiser apoiar este movimento, ponha um gosto na página: Vamos salvar o túmulo do rei D. Dinis!

publicado por Cristina Torrão às 11:30

04
Jan 16

Vila_Real_brasão.gif

 

 

 

Wikipedia

 

 

 

 

 

 

Faz 727 anos que Dom Dinis fundou a Vila Real (hoje, cidade), logo lhe concedendo foral. Na medieval terra de Panóias, existia uma outra cidade, Constantim, que acabou por decair. O pai de Dom Dinis, Dom Afonso III, tentou desenvolver a região, concedendo foral e direitos reais sobre a terra de Panóias, mas o povoamento não se deu. Dom Dinis empenhou-se em renovar o malogrado plano, e fundou aquela que se tornaria uma grande cidade.

Vila Real.jpg

 

 

 

Vila Real

 

 

 

À altura da sua fundação, Vila Real foi doada a Dona Isabel.

 

Hoje verifica-se igualmente o 768º aniversário da morte do rei Dom Sancho II, tio de Dom Dinis, no seu exílio em Toledo.

Sancho II.jpg

 

 

 

Dom Sancho II

 

 

 

 

Incapaz de impor a ordem no reino, Sancho II foi afastado do trono pelo seu irmão mais novo Afonso. O caos que se verificava em Portugal levou uma delegação portuguesa a França, onde vivia o infante Dom Afonso, feito conde de Bolonha, por casamento com Matilde de Bolonha. A delegação portuguesa, composta de clérigos e nobres, foi pedir ao conde de Bolonha que intercedesse na situação portuguesa, exigindo justiça e a imposição da ordem no reino. Jurou-lhe obediência, em Paris, a 6 Setembro de 1245, depois de, a 24 de Julho, o papa Inocêncio IV ter emitido a bula Grandi non immerito, que ditara a deposição de Sancho II, aí considerado rex inutilis.

Afonso III.jpg

 

 

Dom Afonso III, na Viagem Medieval da Terra de Santa Maria 2015

 

 

 

O futuro rei Dom Afonso III jurou respeitar as liberdades da Igreja, mas, durante o seu reinado, envolveu-se numa série de conflitos com o clero, que culminaram com o interdito em Portugal, lançado pelo papa Alexandre IV em Maio de 1255. Este papa também acusou Afonso III de adultério e incesto, numa bula de Abril de 1258, exigindo a restituição do dote a Matilde de Bolonha, a consorte ignorada pelo rei português, que casara entretanto com Beatriz de Castela, filha de Afonso X o Sábio. A situação era complicada, mas Matilde acabou por morrer ainda nesse ano de 1258.

publicado por Cristina Torrão às 15:04

03
Jan 16

 

 

 

Constança 1.jpg

 (sobre a imagem, ver nota no final)

 

A 3 de Janeiro de 1290 nasceu a infanta Dona Constança de Portugal, a primeira filha de Dom Dinis e de Dona Isabel. O casal teve apenas mais um filho, o futuro rei Dom Afonso IV, que nasceu cerca de um ano mais tarde.

 

Apesar de nascida em berço de oiro e se ter tornado rainha, a infanta Dona Constança não terá sido muito feliz na sua curta vida, como acontecia a muitas donzelas da época medieval. Foi obrigada a separar-se dos pais com apenas sete anos, por ocasião do Tratado de Alcañices, a 12 de Setembro de 1297, pois estava prometida em casamento ao rei Fernando IV de Leão e Castela. Em casos destes, era habitual que a noiva fosse criada pelos sogros.

 

Fernando IV tinha apenas doze anos, à altura do Tratado de Alcañices, mas era rei por morte de seu pai Sancho IV. Sua mãe, Maria de Molina, exerceu a regência durante a sua menoridade.

 

Fernando IV e Maria de Molina.jpg

 

 

 

Fernando IV e sua mãe Maria de Molina, Pintura de Antonio Gisbert Pérez, 1863.

 

 

 

 

O casamento foi celebrado em Janeiro de 1302, tinha a noiva doze anos e o noivo dezassete. Fernando IV, porém, morreria subitamente dez anos mais tarde. Constança escreveu aos pais a pedir proteção para o filho Afonso, o novo rei, de apenas um ano.

 

A cena política de Castela agitou-se, despertando lutas pela sucessão do trono. Levantava-se o problema da tutoria do pequeno rei e da regência do reino e a situação tornou-se insuportável para a frágil rainha, incapaz de lidar com as intrigas. Passou uma fase muito confusa, cortando inclusivamente relações com a sogra.

 

Sobre isto, dois excertos do meu romance:

 

No início do Outono, chegou à corte um apelo desesperado de Constança. O pequeno rei, de apenas dois anos, encontrava-se em Toro com a avó, que, ofendida com a nora, a proibia de ver o filho! No seu desespero, Constança suplicava o apoio do pai para levar o tio Juan a exigir a custódia completa do filho, contra Maria de Molina!

Dinis censurou Isabel por haver arrastado a filha para o tio aragonês e a rainha, mortificada, escreveu a Constança, pedindo-lhe que viesse ter com eles. A filha, porém, respondeu que tentaria fazer as pazes com a sogra, esperando que esta a autorizasse a entrar em Toro

Toro.

 

 

- Que se passa?

Isabel respondeu num sussurro:

- Tive um sonho…

- Um pesadelo?

- Não sei… Uma mensagem… Ou uma premonição…

Mais uma? Dinis fez esforço por vencer o enfado, pois haveria uma razão forte que a trouxera ali, numa noite tão fria. Acabou por dizer:

- Sentai-vos e contai-me o que vos atormenta!

Isabel obedeceu. Depois de pousar a vela sobre a mesinha ao lado da cama, iniciou o seu relato:

- Há cerca de uma semana, andando para os lados da Azambuja, deparei com um eremita à beira da estrada. Parecia muito perturbado e eu desmontei da minha mula e perguntei-lhe se havia mister do meu auxílio. Ele não respondeu, limitou-se a fixar-me numa tristeza infinita. Já tratei de muitos enfermos e assisti a muitas aflições, mas nunca vira olhos tão tristes. Insisti na minha pergunta. Depois de me fixar durante mais alguns momentos, ele abanou a cabeça e afastou-se de mim sem uma palavra.

Isabel baixou a cabeça e prosseguiu:

- Não mais olvidei aquele olhar. Passado uns dias, tornei ao local, a fim de o procurar. Mas não o encontrei. Perguntei por ele nas aldeias da região, descrevendo-o o melhor que podia. Ninguém parecia conhecê-lo. Indicaram-me alguns eremitas que por ali viviam e fui ter com eles. Mas nenhum era o que eu havia visto. O homem parecia ter-se esfumado, ou sido engolido pela terra… Tentei olvidá-lo. Mas hoje…

Começou a tremer mais violentamente:

- Sonhei com ele…

- Ora, ficastes impressionada com a sua figura…

- No sonho, ele falou comigo. E disse-me… - Olhou-o, muito trágica: - Que Constança havia morrido!

 

Constança faleceu a 18 de Novembro, com apenas 23 anos, vítima de uma febre que a levou em três dias. Sem ter feito as pazes com a sogra, sem ver os pais uma última vez, nem sequer o filho de dois anos.

 

 

Também a 3 de Janeiro, mas no ano de 1312, dá-se um acontecimento, à primeira vista, corriqueiro, mas que se revelaria de importância, pois avolumou as discórdias entre Dom Dinis e o seu herdeiro, o infante Dom Afonso: a sentença do tribunal régio no processo dos herdeiros do 1º conde de Barcelos, Dom João Afonso Telo.

 

A sentença favoreceu Afonso Sanches, um dos genros do falecido e filho ilegítimo de Dom Dinis, que é nomeado mordomo-mor do pai. O outro genro, Dom Martim Gil de Riba de Vizela, apesar de ter sucedido ao sogro no título, tornando-se no 2º conde de Barcelos, foi muito prejudicado nas partilhas. A sentença chocou-o tanto, que se exilou em Castela, morrendo antes do fim do ano. O seu testamento referia que nenhum dos seus bens fosse parar às mãos do cunhado Afonso Sanches, o que, por decisão régia, acabaria por acontecer!

 

O escandaloso favorecimento do filho bastardo Afonso Sanches, por parte de Dom Dinis, terá sido uma das razões para a revolta do príncipe herdeiro Afonso, revolta que desembocou numa guerra civil, amargurando os últimos anos de vida do rei Poeta e Lavrador.

 

Afonso IV Selo.jpg

 

 

 

Dom Afonso IV, filho de Dom Dinis

 

 

 

 

 

 

 

Nota em relação à primeira imagem: não encontrei nenhuma representação de Dona Constança. Deparei, nas minhas pesquisas, com esta imagem de Sansa Stark, uma personagem d'As Crónicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin. Decidi usá-la porque se aproxima muito da Constança que descrevo no meu romance D. Dinis, a quem chamaram o Lavrador.

publicado por Cristina Torrão às 12:26

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As minhas informações sobre Dom Dinis são baseadas na biografia escrita pelo Professor José Augusto de Sotto Mayor Pizarro (Temas e Debates 2008)
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