Durante este ano, assinalarei aqui acontecimentos importantes do reinado de Dom Dinis, à medida que forem acontecendo os respetivos aniversários, assim como transcreverei excertos do meu romance sobre o Rei Lavrador.

29
Mar 16

Cantiga de Amor 4.jpg

 

 

 

 

Fonte da imagem

 

 

 

 

 

 

 

*As cantigas iam ficando mais ousadas, mais inflamadas. Dinis estava deslumbrado com a sua barregã, mas, no fundo, subsistia o desejo de provocar Isabel, de criar algo que lhe despertasse emoções fortes, como na cantiga onde o poeta mui receava o dia em que não pudesse ver a sua senhor. O sofrimento seria tal, que morreria, o que, no entanto, lhe reservava um conforto: ao morrer, deixaria de sofrer.

    Quant’ eu, fremosa mia senhor,
    de vós receei a veer
    muit’ er sei que nom hei poder
    de m’ agora guardar que nom
    (vos) veja; mais tal confort’ hei
    que aquel dia morrerei
    e perderei coitas d’amor.

O poeta continuava, dizendo que não conseguia imaginar maior pesar do que sentir a ausência da amada. E que Deus lhe perdoasse, pois encontraria conforto na morte, ao livrar-se do maior sofrimento que Nosso Senhor a alguém havia dado:

    E como quer que eu maior
    pesar nom podesse veer
    do que entom verei, prazer
    hei ende, se Deus mi perdom,
    porque por morte perderei
    aquel dia coita que hei
    qual nunca fez Nostro Senhor.

    E, pero hei tam gram pavor
    d’ aquel dia grave veer
    qual vos sol nom posso dizer,
    confort’ hei no meu coraçom
    porque por morte sairei
    aquel dia do mal que hei
    peior do que Deus fez peior.

 

 

*Do meu romance Dom Dinis, a quem chamaram o Lavrador, à venda na Wook e na Leya Online.

publicado por Cristina Torrão às 11:39

25
Mar 16

2015-01-05 Mirandela 081.JPGMirandela - Câmara Municipal

Foto © Horst Neumann

 

Verifica-se, durante o mês de Março (não se sabe o dia), o 725º aniversário do foral de Mirandela e da confirmação do foral de Beja.

 

Acabara de nascer o futuro Dom Afonso IV, herdeiro de Dom Dinis, e no primeiro documento, o rei referiu com orgulho que o mesmo era concedido juntamente com a rainha «e com os meus filhos Infantes Dom Afonso e Dona Constança». A filha tinha pouco mais de um ano.

 

2010-09-07 2 Beja 030.JPG

No Castelo de Beja

Foto © Horst Neumann

 

 

O meu romance sobre Dom Dinis encontra-se disponível em eBook na LeyaOnline (clique).

publicado por Cristina Torrão às 11:22

18
Mar 16

Jacques de Molay.jpg

 

 

 

 

 

 

Fonte da Imagem

 

A 18 de Março de 1314, Jacques de Molay, Mestre dos Templários franceses, assim como outros grandes dignitários da Ordem, foram queimados em Paris, por ordem de Filipe IV. Foi o culminar da grande campanha de difamação, levada a cabo pelo monarca francês.

Ao ser queimado, Jacques de Molay fez uma profecia que se veio a cumprir. Disse ele que, ainda antes do fim desse ano de 1314, os dois maiores responsáveis pela destruição dos Templários morreriam!

De facto, o papa Clemente V morreu passado cerca de um mês, a 20 de Abril, com cinquenta anos. E o rei francês Filipe IV acabaria por sucumbir a um acidente de caça, a 29 de Novembro, com apenas quarenta e seis.

 

Clemente e Filipe.jpg

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O meu romance sobre Dom Dinis encontra-se disponível na LeyaOnline (clique).

Cover neu3 Dom Dinis 100.jpg

 

publicado por Cristina Torrão às 11:36

16
Mar 16

Cover neu3 Dom Dinis 100.jpg

 

 

 

O romance pode ser adquirido na Leya Online e na Wook.

 

 

 

 

 

 

Quer’ eu em maneira de proençal
fazer agora um cantar d’ amor,
e querrei muit’ i loar mia senhor
a que prez nem fremosura nom fal,
nem bondade; e mais vos direi em:
tanto a fez Deus comprida de bem
que mais que todas las do mundo val.

Dinis escrevia cantigas à moda provençal, louvando a "senhor" que provava ser melhor do que todas as outras, não lhe faltando formosura, bondade, sabedoria, afabilidade e bom senso:

Ca mia senhor quiso Deus fazer tal,
quando a fez, que a fez sabedor
de todo o bem e de mui gram valor,
e com tod’ esto é mui comunal
ali u deve; er deu-lhi bom sem,
e desi nom lhi fez pouco de bem
quando nom quis que lh’ outra foss’ igual.

Ca em mia senhor nunca Deus pôs mal,
mais pôs i prez e beldad’ e loor
e falar mui bem, e riir melhor
que outra molher; desi é leal
muit’, e por esto nom sei hoj’ eu quem
possa compridamente no seu bem
falar, ca nom há, tra-lo seu bem, al.

Dinis deixara de ver defeitos em Isabel. Na sua serenidade e temperança, a rainha conferia uma harmonia rara à sua vida, como se ele houvesse encontrado uma paz há muito desejada.

 

 

Nota: Todas as Cantigas de Amor transcritas no meu romance são originais de Dom Dinis, embora seja fictício o contexto em que são inseridas.

 

publicado por Cristina Torrão às 12:24

14
Mar 16

Ordem de Cristo.jpg

 

 

 

 

 

 

Fonte da Imagem

 

Faz hoje 697 anos que foi instituída, no reino de Portugal, a Ordem de Cavalaria de Nosso Senhor Jesus Cristo, através da bula Ad ea ex quibus de João XXII. O papa determinava que a nova Ordem se destinava a manter a cruzada religiosa contra os sarracenos. Atribuiu-lhe a regra de Calatrava, sujeitou-a à jurisdição do abade de Alcobaça e colocou a sua sede em Castro Marim.

A Ordem de Cristo veio substituir a dos Templários, suprimida pelo papa Clemente V, influenciado pelo rei francês Filipe IV, que tudo fez para difamar os cavaleiros do Templo.

 

Dinis tornou a receber notícias da Santa Sé: a bula Regnans in coelis, que compreendia um relato dos crimes de que os Templários eram acusados. Clemente V insistia naquilo que Dinis considerava um absurdo, não havia dúvida de que se tornara num mero instrumento de Filipe IV. Mas o que tinha o monarca francês contra a Ordem do Templo? Seriam verdadeiros os rumores de que, estando à beira da ruína, Filipe pretendia apoderar-se do valioso património? Acabar com uma Ordem, criada pela própria Santa Sé, no início das cruzadas, e queimar centenas de freires como hereges, apenas por ganância?

 

Na Península Ibérica, porém, a campanha de difamação não encontrou grande eco, devido à fama dos Templários, criada nas lutas da Reconquista. À semelhança dos outros reis hispânicos, Dom Dinis protegeu a Ordem e promoveu diligências para que uma outra fosse criada, entregando à Ordem de Cristo todos os bens que tinham pertencido aos Templários. Teve, no entanto, de enfrentar alguma oposição interna:

 

Em Março, quando se deu início à construção de um claustro no mosteiro de Alcobaça, Dinis recebeu notícias da Santa Sé que confirmavam os receios do Mestre. Numa bula com data de 22 de Novembro, intitulada Pastoralis praeeminentiae, Clemente V recomendava a todos os príncipes da Cristandade a prisão dos Templários e a confiscação dos seus bens. Dinis entrou em contacto com o genro Fernando IV e o cunhado Jaime II e resolveu-se não se tomarem medidas, enquanto se aguardava pelo resultado do inquérito do clero hispânico, o que aliás implicava ignorar a bula.

Em Abril, quando Dinis chegou à Beira, constatou que tal resolução estava longe de agradar a toda a gente. O bispo da Guarda Dom Vasco Martins de Alvelos advogava o cumprimento das recomendações do pontífice:

- Ignorais uma bula papal? E olvidais que Jacques de Molay confessou os pecados mais terríveis? Heresia, usura, sodomia! Se os franceses se davam a essas práticas repugnantes, os hispânicos não serão mui diferentes…

- Credes realmente que os freires do Templo fomentavam tais costumes? - contrapôs Dinis. - Sob tortura, qualquer um é levado a confessar, principalmente, o que não fez. Além disso, o Mestre francês desmentiu a sua confissão dois meses mais tarde.

- O que prova a sua falta de carácter!

- Ou constatar o não cumprimento de certas promessas?

O bispo olhou o seu monarca desconfiado:

- Que quereis dizer?

- Frei Vasco Fernandes é de opinião que Jacques de Molay terá confessado os crimes, acima de tudo, perante a promessa de que, se o fizesse, os restantes irmãos seriam poupados aos suplícios que ele próprio já experimentara. Mais tarde, ao verificar que tal não passava de uma mentira, desmentiu a sua confissão.

- Ora, Alteza, é claro que eles se protegem uns aos outros! A opinião de Frei Vasco Fernandes, neste caso, é mais do que suspeita.

Dinis olhou o prelado de soslaio, convencido de que ele cobiçava o património dos freires. Retorquiu:

- Tenho Frei Vasco Fernandes em grande estima e confio no seu juízo. Como aliás em todos os membros portugueses da Ordem. Bem sabeis como eles sempre lutaram com bravura contra a ameaça sarracena e como a sua presença é preciosa em muitos pontos da fronteira, garantindo a defesa e o povoamento.

Depois de um momento de vacilação, o bispo insistiu:

- As bulas papais são para se cumprirem!

- Pois eu estou certo que na Hispânia não se ateará uma fogueira que seja contra os Templários! Nem tão-pouco se procederá à alienação dos seus bens!

 

Excertos do meu romance, disponível em ebook na LeYa Online (clique) e na Wook.

 

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publicado por Cristina Torrão às 11:10

11
Mar 16

11 de Março é uma data simbólica da nossa história recente, mas também o foi há 735 anos!

 

A 11 de Março de 1281, o rei Afonso X de Leão e Castela concedeu terras e igrejas aos Hospitalários, a título de escambo, para os compensar da perda de Moura, Serpa, Noudar e Mourão. O rei castelhano pretendia doar estes lugares e vilas à filha Dona Beatriz, rainha viúva de Portugal. Dona Beatriz tinha-se refugiado na corte castelhana por desentendimentos com o filho Dom Dinis, depois de enviuvar.

 

DinisQuadro.jpg

 

Imagem de Dom Dinis, publicada na História Universal da Literatura Portuguesa (2006).

 

 

 

Depois de aguardar uns momentos, Dinis inquiriu:

- As vilas de Moura, Serpa, Noudar e Mourão continuam em vosso poder, não é verdade?

- Sim, com todos os seus termos, castelos, rendas e direitos. Foi essa a recompensa de vosso avô, por eu lhe ter prestado assistência.

- Presumo então que nada tereis contra o facto de integrá-las no reino de Portugal!

Beatriz fixou-o pensativa e, assim pareceu a Dinis, um pouco acusadora. Na verdade, o rei receava que ela dissesse que ele não merecia tal, por ter abandonado o avô. Mas ela acabou por retorquir:

- Longe de mim contrariar vosso pai nessa questão.

- Meu pai?!

- Fosse ele vivo, não tenho a menor dúvida qual seria a sua vontade!

Para Dinis, aquela era uma vitória de sabor amargo. Sua mãe concordava em alargar a fronteira portuguesa para leste do Guadiana, mas, pelos vistos, não porque ele merecesse, ou por ela lhe querer dar esse gosto. Beatriz acrescentou:

- Além disso, não está apenas em causa a vossa herança. - Prosseguiu, com um esboço de sorriso: - O reino pertencerá um dia ao vosso herdeiro, meu neto. Essa é a razão mais forte para o meu regresso: pretendo acompanhar a educação e o crescimento dos infantes.

 

Foi graças a esta herança de sua mãe, que Dom Dinis pôde alargar a fronteira portuguesa para leste do Guadiana, alargamento que ficou estipulado no Tratado de Alcañices, a 12 de Setembro de 1297.

 

O excerto é do meu romance, ebook que pode ser adquirido na LeYaOnline  e na Wook.pt (clique).

 

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publicado por Cristina Torrão às 10:56

09
Mar 16

(com excerto do meu romance)

 

Cover neu3 Dom Dinis 100.jpg

 

 

 

 

O romance pode ser adquirido na Leya Online e na Wook.

 

 

 

 

 

Ao som dos alaúdes, Pêro Anes Coelho entoou os primeiros versos da cantiga de autoria de Dinis, em que informava a amada do seu amigo que este andava tão triste, que já quase não podia falar:
        
    O voss’ amig’, amiga, vi andar
    tam coitado que nunca lhi vi par,
    que adur mi podia já falar,

Os outros dois trovadores juntaram-se-lhe no refrão, em que o apaixonado arranjava forças para suplicar que fossem rogar à amada que tivesse mercê dele:

    pero quando me viu disse-m’ assi:
    «Ai, senhor, id’ a mia senhor rogar
    por Deus que haja mercee de mi.»

Era um poema em jeito de recado. A corte e os convidados seguiam encantados como Pêro Anes Coelho anunciava que o coitado perdera o juízo e o ânimo:

    El andava trist’ e mui sem sabor,
    como quem é tam coitado d’ amor
    e perdudo o sem e a color,

E, de novo, se lhe juntaram os outros no refrão:

    pero quando me viu disse-m’ assi:
    «Ai, senhor, id’ a mia senhor rogar
    por Deus que haja mercee de mi.»

Embora descrevesse um sofrimento, a cantiga possuía uma melodia leve e muito ritmo, na mudança entre o solista e o refrão.

    El, amiga, achei eu andar tal
    como morto, ca é descomunal
    o mal que sofr’ e a coita mortal,
    pero quando me viu disse-m’ assi:
    «Ai, senhor, id’ a mia senhor rogar
    por Deus que haja mercee de mi.»

 

 

Nota: Todas as Cantigas de Amigo transcritas no meu romance são originais de Dom Dinis, embora seja fictício o contexto em que são inseridas. 

publicado por Cristina Torrão às 10:51

07
Mar 16

11 de Março é uma data simbólica da nossa história recente, mas também o foi há 735 anos!

 

A 11 de Março de 1281, o rei Afonso X de Leão e Castela concedeu terras e igrejas aos Hospitalários, a título de escambo, para os compensar da perda de Moura, Serpa, Noudar e Mourão. O rei castelhano pretendia doar estes lugares e vilas à filha Dona Beatriz, rainha viúva de Portugal. Dona Beatriz tinha-se refugiado na corte castelhana por desentendimentos com o filho Dom Dinis, depois de enviuvar.

 

DinisQuadro.jpg

 

Imagem de Dom Dinis, publicada na História Universal da Literatura Portuguesa (2006).

 

 

 

Depois de aguardar uns momentos, Dinis inquiriu:

- As vilas de Moura, Serpa, Noudar e Mourão continuam em vosso poder, não é verdade?

- Sim, com todos os seus termos, castelos, rendas e direitos. Foi essa a recompensa de vosso avô, por eu lhe ter prestado assistência.

- Presumo então que nada tereis contra o facto de integrá-las no reino de Portugal!

Beatriz fixou-o pensativa e, assim pareceu a Dinis, um pouco acusadora. Na verdade, o rei receava que ela dissesse que ele não merecia tal, por ter abandonado o avô. Mas ela acabou por retorquir:

- Longe de mim contrariar vosso pai nessa questão.

- Meu pai?!

- Fosse ele vivo, não tenho a menor dúvida qual seria a sua vontade!

Para Dinis, aquela era uma vitória de sabor amargo. Sua mãe concordava em alargar a fronteira portuguesa para leste do Guadiana, mas, pelos vistos, não porque ele merecesse, ou por ela lhe querer dar esse gosto. Beatriz acrescentou:

- Além disso, não está apenas em causa a vossa herança. - Prosseguiu, com um esboço de sorriso: - O reino pertencerá um dia ao vosso herdeiro, meu neto. Essa é a razão mais forte para o meu regresso: pretendo acompanhar a educação e o crescimento dos infantes.

 

Foi graças a esta herança de sua mãe, que Dom Dinis pôde alargar a fronteira portuguesa para leste do Guadiana, alargamento que ficou estipulado no Tratado de Alcañices, a 12 de Setembro de 1297.

 

O excerto é do meu romance, ebook que pode ser adquirido na LeYaOnline (clique).

 

Cover neu3 Dom Dinis 100.jpg

 

publicado por Cristina Torrão às 18:20

A 7 de Março de 1322, Dom Dinis cercou a cidade de Coimbra, que havia sido conquistada por seu filho a 31 de Dezembro de 1321. Também Dona Isabel para lá se dirigiu, deixando o seu desterro em Alenquer, ordenado pelo próprio Dom Dinis, que a acusava de pactuar com o filho.O reino português encontrava-se em plena guerra civil, entre Dom Dinis e o seu herdeiro, futuro Dom Afonso IV, uma guerra que tanto desgastou o rei, que bem pode ter acelerado a sua morte.

 

Como se vê, havia um grande drama familiar por trás da guerra que dilacerou o reino português no início do século XIV, o que não deixa de ser estranho, tendo em conta os protagonistas: um rei culto, justo e amigo do povo; uma rainha exemplar, que foi canonizada; o filho dos dois!

 

DinisCoimbra.jpg

 

 

 

 

 

Pormenor da estátua de Dom Dinis em Coimbra

 

 

 

 

Vendo a derrota à frente, Dinis considerou ser Isabel a sua última esperança. Pediu para conferenciar com ela e pediu-lhe desesperado:

- Suplico-vos que guiseis estabelecer a paz sem que haja vencedor nem derrotado!

Isabel olhou-o amargurada:

- Pedis-me o impossível!

Dinis aproximou-se dela e, pegando-lhe nas mãos, insistiu:

- Intercedei junto de Deus! Diz-se que já fizestes milagres… Não o podereis tornar a fazer?

A rainha engoliu em seco e replicou:

- A graça de fazer milagres só é concedida quando Deus assim o entende, não depende da minha vontade. Sou um mero instrumento nas Suas mãos.

- Quereis dizer que nada podeis fazer por mim?

O seu desespero mortificava-a. O rei raramente lhe vira o rosto tão dilacerado pelo sofrimento e, num impulso, beijou-lhe as mãos. Ela fechou os olhos por um momento e quando os abriu, disse:

- Darei o meu melhor! Mas haverei mister de auxílio, de um mediador, a quem Afonso dê realmente ouvidos. E não me ocorre mais ninguém tão adequado como o conde de Barcelos!

Dinis estremeceu perante a menção daquele seu bastardo que ele destituíra do cargo de alferes-mor e da maior parte das suas rendas, obrigando-o ao exílio. Até àquele momento, considerara-o um traidor. Agora, deu consigo a perguntar:

- Pensais que ele consentirá em falar comigo?

- Com certeza. Pedro Afonso é uma alma gentil, que não guarda rancor… E que vos ama e respeita como ninguém!

 

Isabel - Batalha Alvalade.jpg

 

 

 

 

Imagem daqui

 

 

 

Graças às intervenções de Dona Isabel e do conde Pedro de Barcelos, o rei retirou para Leiria e o infante para Pombal. Em Maio, encontraram-se em Leiria e assinaram um acordo de paz. Dom Dinis, porém, que já passara dos sessenta, foi acometido de doença grave à sua chegada a Lisboa.

 

Ao chegar a Lisboa, confiante que, podendo enfim repousar, o seu estado melhorasse, Dinis constatou o contrário: acordou uma madrugada muito prostrado, confuso da cabeça e sem conseguir articular palavras! Chamaram-se os físicos, que o sangraram, e também a rainha preparou as suas poções, desfazendo-se em mil cuidados e desdobrando-se em rezas.

Passado uns dias, Dinis melhorou um pouco. Embora a fraqueza ainda o impedisse de deixar o leito, viu-se capaz de falar e aproveitou para suplicar à rainha que não o deixasse, sentindo-se muito dependente dela. E, a 20 de Junho daquele ano de 1322, decidiu fazer o seu testamento.

(…)

Nos piores momentos da sua enfermidade, os cuidados e a dedicação de Isabel provaram ser imprescindíveis. O rosto dela iluminava o dia mais triste, a sua voz confortava, a sua serenidade dava confiança e coragem e o toque das suas mãos era bálsamo para almas aflitas. Isabel era a esperança transformada gente, como se Deus houvesse decidido dar uma forma humana a esse sentimento. E, apesar de haver amado outras mulheres e de, muitas vezes, haver odiado a rainha, Dinis não desejaria ter qualquer outra perto de si naquelas horas difíceis.

 

Dom Dinis melhorou. Mas a paz que assinou com o filho foi quebrada cerca de ano e meio mais tarde, depois das Cortes de Lisboa, em Outubro de 1323. A guerra civil entraria na sua última fase.

 

Afonso IV Selo.jpg

 

 

 

 

 

Dom Afonso IV

 

 

 

 

Os excertos são do meu romance sobre Dom Dinis que pode ser adquirido na LeyaOnline por 6,99 € (clique). Também na Wook.

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publicado por Cristina Torrão às 11:14

05
Mar 16

Quantas contendas são provocadas e quantas mágoas se guardam por palavras silenciadas? Palavras que se adivinham, mas que não são ditas? Não se duvida do amor de um pai por um filho e, no entanto, se não for continuamente expresso, seja por falas, seja por atos, deixará o filho eternamente insatisfeito, desconfiando desse afeto. Qualquer pessoa, desde o mais baixo serviçal, ao mais alto dos soberanos, há mister da aprovação e do apoio expresso de seus orientadores. É um erro abrigarmo-nos sob a capa das evidências. Amar não é apenas um conceito, é prová-lo, todos os dias, a todas as horas. Quer se trate de um pai, de uma mãe, seja de quem for: quem não pratica o amor, não o recebe de volta. Quanto desprezo, quanto abandono e, muitas vezes, quanto sarcasmo aguentaram aqueles de quem se diz não serem bons filhos?

 

(palavras da rainha Santa Isabel in "Dom Dinis - a quem chamaram o Lavrador")

 

Cover neu3 Dom Dinis 100.jpg

 O romance está disponível sob a forma de eBook na LeyaOnline (clique).

publicado por Cristina Torrão às 11:22

Andanças Medievais
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Informação
As minhas informações sobre Dom Dinis são baseadas na biografia escrita pelo Professor José Augusto de Sotto Mayor Pizarro (Temas e Debates 2008)
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