Durante este ano, assinalarei aqui acontecimentos importantes do reinado de Dom Dinis, à medida que forem acontecendo os respetivos aniversários, assim como transcreverei excertos do meu romance sobre o Rei Lavrador.

30
Mai 16

Esta cantiga de amigo deve ser a mais conhecida de Dom Dinis. Hoje deixo-vos com momentos das cenas que escrevi à volta destes versos:

 

Pauta e Músicos.jpg

 

Num serão de Março, as taças de vinho esvaziavam-se facilmente e o rei encarregou os trovadores João Anes Redondo e Pêro Anes Coelho de entoarem a sua nova cantiga. Começava com um lamento dirigido à natureza, uma donzela pedia às flores notícias do amigo que tardava em aparecer, receando que ele lhe houvesse mentido. O refrão consistia precisamente na pergunta: Ai Deus, e onde está?

 

                        Ai flores, ai flores do verde pino

                        se sabedes novas do meu amigo!

                        Ai Deus, e u é?

 

                        Ai flores, ai flores do verde ramo,

                        se sabedes novas do meu amado!

                        Ai Deus, e u é?

 

                        Se sabedes novas do meu amigo,

                        aquel que mentiu do que pôs comigo?

                        Ai Deus, e u é?

 

                        Se sabedes novas do meu amado,

                        aquel que mentiu do que m’ há jurado,

                        Ai Deus, e u é?

 

A natureza interpelada punha fim à angústia da donzela, dizendo-lhe que o amigo estava vivo e sano e viria ter com ela dentro do prazo prometido. A simplicidade e o ritmo harmónico da cantiga pôs os convivas a cantar o refrão «Ai Deus, e u é?» em coro:

 

                        Vós me perguntades polo voss’ amigo?

                        e eu bem vos digo que é san’ e vivo.

                        Ai Deus, e u é?

 

                        Vós me perguntades polo voss’ amado?

                        e eu bem vos digo que é viv’ e sano.

                        Ai Deus, e u é?

 

                       E eu bem vos digo que é san’ e vivo,

                        e será vosc’ ant’ o prazo saído.

                        Ai Deus e u é?

 

                        E eu bem vos digo que é viv’ e sano,

                        e será vosc’ ant’ o prazo passado.

                        Ai Deus, e u é?

 

Se o fervor dos aplausos surpreendeu Dinis, maior foi o seu espanto, quando se exigiu a repetição da cantiga:

                       

                        Ai flores, ai flores do verde pino

                        se sabedes novas do meu amigo!

                       Ai Deus, e u é?

 

Os versos não custavam a fixar e em breve todos cantavam em conjunto com os trovadores, erguendo as suas taças na altura do refrão:

 

                        Ai Deus, e u é?

 

Gerara-se uma rara descontração e, assim que a cantiga chegou ao fim, foi exigida uma terceira vez! Aquela noite parecia diferente das outras, havia algo de especial no ar morno, convidativo ao deleite.

 

Notação Musical.jpgNotação musical original de Dom Dinis ©Arquivo Nacional Torre do Tombo

 

 

Era mais um dia esplêndido e os fidalgos e as damas, ao embrenharem-se pelos prados, começaram espontaneamente a entoar a cantiga do serão:

 

                                   Ai flores, ai flores do verde pino,

                                   Se sabedes novas do meu amigo!

                                   Ai Deus, e u é?

 

            Parecia feitiço! Dinis espantava-se mais uma vez com o efeito de uma cantiga que não lhe dera grande trabalho a compor. Escrevia outras, bem mais elaboradas, que lhe custavam muito esforço e que, embora apreciadas, asinha se olvidavam. Parecia haver magia naquelas palavras e naquele ritmo:

 

                                   Ai flores, ai flores do verde ramo,

                                   Se sabedes novas do meu amado!

                                   Ai Deus, e u é?

 

 

O meu romance sobre Dom Dinis está à venda sob a forma de ebook na LeYa Online, na Wook e na Kobo.

 

 

publicado por Cristina Torrão às 17:15

24
Mai 16

Vila Flor Brasão.png

Verifica-se hoje o 730º aniversário do foral de Vila Flor (Trás-os-Montes), outorgado por Dom Dinis (24 de Maio de 1286).

 

Arco do Castelo de Vila Flor.JPG

Arco do Castelo de Vila Flor

Imagens Wikipedia

 

 

publicado por Cristina Torrão às 11:32
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20
Mai 16

João XXI.jpgImagem Wikipedia

 

A 20 de Maio de 1277, morreu o único papa português, João XXI, de acidente, em Viterbo.

 

Dom Dinis, de dezasseis anos, ainda não era rei, seu pai Dom Afonso III só morreria quase dois anos mais tarde, a 16 de Fevereiro de 1279. Mas o rei Lavrador terá conhecido João XXI, antigo deão da Sé de Lisboa.

 

Transcrevo uma pequena cena do meu romance, relativa à morte do papa português:

 

- O senhor vosso pai pede-vos que volvam a Lisboa! Acabou de receber a notícia do passamento de Sua Santidade o papa João XXI.

- Mestre Pedro Julião finou-se? - surpreendeu-se Dinis.

O antigo deão da Sé de Lisboa, conhecido no estrangeiro como Pedro Hispano, estudara Artes em Paris e Medicina em Montpellier. Escrevera várias obras sobre Teologia e outros campos do saber e passara temporadas na cúria papal, tornando-se físico do papa Gregório X, a quem sucedera. Ainda não era velho, nem se lhe conhecia enfermidade:

- Mas como pode tal haver sucedido?

- Foi um acidente, em Viterbo - respondeu o mensageiro. - O Santo Padre inspecionava umas obras de uma nova ala que mandara edificar no palácio dos papas, quando uma parte do edifício desabou.

 

Cover neu3 Dom Dinis 100.jpg

 

O meu romance sobre Dom Dinis pode ser adquirido na forma de ebook na LeYa Online e na Wook.

publicado por Cristina Torrão às 11:24

16
Mai 16

V N Foz Coa Brasão.png

 

A 16 de Maio de 1299, Dom Dinis concedeu foral a Vila Nova de Foz Coa e ordenou o seu povoamento.

 

O meu romance sobre Dom Dinis pode ser adquirido na forma de ebook na LeYa Online e na Wook.

 

 

publicado por Cristina Torrão às 11:11
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11
Mai 16

Do ponto de vista poético, Dom Dinis é sobretudo conhecido pelas suas cantigas de amor e de amigo. Mas ele compôs também algumas cantigas de escárnio e aproveito para lembrar uma passagem do meu romance, onde enquadrei uma dessas cantigas:

 

Serão na Corte 2.jpg

 Serão na corte, por H. Vanez

 

Assim se viu Dinis rodeado de fidalgos pomposos a disputar-lhe a atenção, tentando impressioná-lo com as suas proezas, sem sequer haver uma sessão musical que o distraísse. O Paço episcopal não era o local indicado para fazer a corte às senhoras através de cantigas trovadorescas, para já não falar de uma ou outra dança.
Por entre as conversas, Dinis recordou uma cantiga de escárnio que compusera sobre um fidalgo de província, por ele apelidado de Dom Foam e que falava intermitentemente, sem se aperceber do cansaço e do tédio que causava ao seu soberano:

U noutro dia seve Dom Foam,
a mi começou gram noj’ a crecer
de muitas cousas que lh’ oí dizer.
Diss’ el: - «Ir-m’ ei ca já se deitaram»;
e dix’ eu: - «Boa ventura hajades
porque vos ides e me leixades».

E muit’ enfadado do seu parlar
sevi gram peça, se mi valha Deus,
e tosquiava estes olhos meus.
E quand’ el disse: - «Ir-me quer’ eu deitar»
e dix’ eu: - «Bõa ventura hajades
porque vos ides e me leixades».

El seve muit’ e diss’ e porfiou,
e a mim creceu gram nojo por em,
e nom soub’ el se x’ era mal se bem.
E quand’ el disse: - «Já m’ eu deitar vou»
e dix’ eu: - «Bõa ventura hajades
porque vos ides e me leixades».

 

Nota: o meu romance está à venda sob a forma de ebook na Leya Online, na Kobo e na Wook

 

publicado por Cristina Torrão às 11:01

08
Mai 16

DinisCoimbra.jpg

 

Faz hoje 718 anos que Dom Dinis tomou uma medida inédita: pela primeira vez, um monarca português outorgou um título simbólico a um fidalgo, o título de conde, sem estar ligado à sua função original: a de ser governante de um vasto território. Tratava-se apenas de um título de prestígio.

 

A 8 de Maio de 1298, Dom Dinis outorgou a carta de doação da vila de Barcelos «por serviço que me fez dom João Afonso [Telo] e porque o fiz conde».

 

Dom João Afonso Telo era um nobre leonês, senhor do castelo de Albuquerque, mas com ligações familiares a Portugal. Tornou-se grande amigo de Dom Dinis, exercendo atividades diplomáticas em nome da Coroa portuguesa. O Rei Lavrador decidiu recompensá-lo, dando-lhe o título de conde de Barcelos, mas de poder muito limitado, já que se confinava à vila de Barcelos. Este modo de proceder estava de acordo com a política de Dom Dinis de restringir o poder da nobreza, concentrando-o na Coroa.

 

publicado por Cristina Torrão às 11:08

04
Mai 16

Afonso III.jpg

 

 

Dom Afonso III na Viagem Medieval de Santa Maria da Feira 2015

 

 

Também o avô de Dom Afonso IV, Dom Afonso III, casou no mês de Maio, não se sabendo o dia e sendo a noiva igualmente infanta Dona Beatriz de Castela! Foi cinquenta e seis anos antes, em 1253, a noiva teria apenas onze anos, o noivo ia pelos quarenta.

 

Este casamento surgiu na sequência de um Tratado de Paz entre Portugal e Castela por causa da questão do Algarve, mas implicou problemas muito graves: Dom Afonso III foi acusado de bigamia pelo papa Alexandre IV, que, dois anos mais tarde, lançaria o interdito sobre Portugal. Um reino sob interdito estava proibido de celebrar missas e sacramentos (incluindo casamentos e batizados), situação que durou quase dez anos.

 

A razão para medida tão severa: à altura do seu casamento com Dona Beatriz, Dom Afonso III era ainda casado com Matilde de Boulogne. Dom Afonso III tinha ido ainda jovem para a corte francesa, que se encontrava sob a regência de sua tia Branca, antiga infanta de Castela. Em 1239, a tia arranjou-lhe casamento com a viúva Matilde de Boulogne, bastante mais velha do que ele, mas filha única da condessa Ida e herdeira daquele condado.

 

Seis anos mais tarde, porém, Dom Afonso regressou sozinho a Portugal, a fim de tomar conta do reino mal governado por seu irmão. Em 1253, já coroado rei, e no intuito de pôr fim ao conflito com o monarca castelhano por causa do Algarve, casou com Beatriz, ignorando Matilde por completo, de quem vivia separado há oito anos.

 

O rei chegou ao ponto de ignorar uma ordenação papal para se apresentar em Roma, a fim de ser julgado por bigamia, mas o problema resolveu-se com a morte inesperada de Matilde. No entanto, só passados cinco anos, em Junho de 1263, um novo papa, Urbano IV, legitimou o segundo consórcio do monarca, levantando o interdito sobre o reino.

 

À altura do seu nascimento, a 9 de Outubro de 1261, Dom Dinis era, no fundo, ilegítimo e este argumento foi usado por seu irmão Afonso, quando, pela terceira vez, se revoltou contra o rei, em 1299, obrigando Dom Dinis a montar cerco a Portalegre. Dom Afonso alegava ter mais direito ao trono do que o irmão mais velho, por ter nascido numa data mais próxima da legalização do casamento dos pais (a 6 de Fevereiro de 1263).

 

Dom Afonso III e Dona Beatriz tiveram sete filhos:

 

Infanta Dona Branca, nascida em Fevereiro de 1259

Dom Dinis, nascido a 9 de Outubro de 1261

Infante Dom Afonso, nascido a 6 de Fevereiro de 1263

Infanta Dona Sancha, nascida a 2 de Fevereiro de 1264 (faleceu com cerca de vinte anos)

Infanta Dona Maria, nascida em Fevereiro ou Março de 1265 (faleceu com pouco mais de um ano)

Infante Dom Vicente, nascido a 22 de Janeiro de 1268 (falecido ainda criança)

Infante Dom Fernando, nascido em 1269, falecendo pouco tempo depois.

 

 

publicado por Cristina Torrão às 10:41

01
Mai 16

Afonso IV Biografia.jpg

 

Foi em Maio de 1309 (não se sabe o dia), que o futuro rei Dom Afonso IV, filho de Dom Dinis, casou com a infanta Dona Beatriz de Castela. Dom Afonso e Dona Beatriz foram os pais de Dom Pedro I, que ficaria conhecido pelo seu amor trágico por Inês de Castro (tendo ficado seu pai com a “fama” de ter mandado assassinar a amante do filho, embora não exista certeza histórica).

 

À altura do seu casamento, Dom Afonso tinha dezoito anos e a sua noiva dezasseis ou dezassete. Os dois conheciam-se desde crianças, Dona Beatriz foi criada pelos sogros Dom Dinis e Dona Isabel. A infanta castelhana tinha vindo para a corte portuguesa na sequência do Tratado de Alcanices, celebrado a 12 de Setembro de 1297, no qual se definiram definitivamente as fronteiras entre Portugal e Castela e se estabeleceu um duplo consórcio: além do de Dom Afonso e de Dona Beatriz, ficou estipulado que o rei Fernando IV de Castela, que à altura tinha apenas onze ou doze anos, casaria com a infanta Dona Constança de Portugal.

 

Era costume que noivas ainda crianças fossem criadas pelos sogros e o casal Dom Dinis/Dona Isabel trocou a filha com a rainha viúva castelhana Dona Maria de Molina. Dona Beatriz veio para Portugal com apenas cinco anos, enquanto Dona Constança, de sete, foi viver para a corte castelhana.

 

Para que este duplo consórcio se concretizasse, foi necessário solicitar dispendiosas bulas de dispensa de parentesco ao papa, já que os nubentes eram parentes próximos. Dom Fernando IV e Dona Beatriz eram filhos do falecido rei de Castela, Dom Sancho IV, tio de Dom Dinis.

 

O facto de Dom Afonso IV e Dona Beatriz terem crescido juntos parece ter dado bom resultado, pois este monarca, não obstante a tradição lhe ter conferido um temperamento irascível, é um caso raro na historiografia portuguesa: não se lhe conhecem barregãs nem filhos ilegítimos. O casal teve sete filhos, mas apenas três chegaram à idade adulta, porquanto a mais nova, Leonor, que casou com Dom Pedro IV de Aragão, morreu com apenas vinte anos.

 

Cover neu3 Dom Dinis 100.jpg

 Ebook à venda na LeYa Online e na Wook.

 

 

publicado por Cristina Torrão às 11:19

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As minhas informações sobre Dom Dinis são baseadas na biografia escrita pelo Professor José Augusto de Sotto Mayor Pizarro (Temas e Debates 2008)
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