Durante este ano, assinalarei aqui acontecimentos importantes do reinado de Dom Dinis, à medida que forem acontecendo os respetivos aniversários, assim como transcreverei excertos do meu romance sobre o Rei Lavrador.

01
Mai 16

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Foi em Maio de 1309 (não se sabe o dia), que o futuro rei Dom Afonso IV, filho de Dom Dinis, casou com a infanta Dona Beatriz de Castela. Dom Afonso e Dona Beatriz foram os pais de Dom Pedro I, que ficaria conhecido pelo seu amor trágico por Inês de Castro (tendo ficado seu pai com a “fama” de ter mandado assassinar a amante do filho, embora não exista certeza histórica).

 

À altura do seu casamento, Dom Afonso tinha dezoito anos e a sua noiva dezasseis ou dezassete. Os dois conheciam-se desde crianças, Dona Beatriz foi criada pelos sogros Dom Dinis e Dona Isabel. A infanta castelhana tinha vindo para a corte portuguesa na sequência do Tratado de Alcanices, celebrado a 12 de Setembro de 1297, no qual se definiram definitivamente as fronteiras entre Portugal e Castela e se estabeleceu um duplo consórcio: além do de Dom Afonso e de Dona Beatriz, ficou estipulado que o rei Fernando IV de Castela, que à altura tinha apenas onze ou doze anos, casaria com a infanta Dona Constança de Portugal.

 

Era costume que noivas ainda crianças fossem criadas pelos sogros e o casal Dom Dinis/Dona Isabel trocou a filha com a rainha viúva castelhana Dona Maria de Molina. Dona Beatriz veio para Portugal com apenas cinco anos, enquanto Dona Constança, de sete, foi viver para a corte castelhana.

 

Para que este duplo consórcio se concretizasse, foi necessário solicitar dispendiosas bulas de dispensa de parentesco ao papa, já que os nubentes eram parentes próximos. Dom Fernando IV e Dona Beatriz eram filhos do falecido rei de Castela, Dom Sancho IV, tio de Dom Dinis.

 

O facto de Dom Afonso IV e Dona Beatriz terem crescido juntos parece ter dado bom resultado, pois este monarca, não obstante a tradição lhe ter conferido um temperamento irascível, é um caso raro na historiografia portuguesa: não se lhe conhecem barregãs nem filhos ilegítimos. O casal teve sete filhos, mas apenas três chegaram à idade adulta, porquanto a mais nova, Leonor, que casou com Dom Pedro IV de Aragão, morreu com apenas vinte anos.

 

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 Ebook à venda na LeYa Online e na Wook.

 

 

publicado por Cristina Torrão às 11:19

08
Abr 16

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Imagem daqui

 

 

 

 

 

Verifica-se hoje o 696º aniversário de Dom Pedro I, que ficou sobretudo conhecido pelo seu trágico amor por Inês de Castro.

Dom Pedro I era neto de Dom Dinis e de Dona Isabel, filho de Dom Afonso IV. Nasceu numa época complicada, em plena guerra civil que opunha Dom Dinis ao seu herdeiro, pai de Dom Pedro.

Inês de Castro viria a ser assassinada no Paço que a rainha Santa Isabel mandara construir para si própria, junto ao mosteiro de Santa Clara, em Coimbra.

 

 

Também a 8 de Abril, mas uns anos antes, em 1299, Dom Dinis, que contava trinta e sete anos, fez o seu primeiro testamento, antes de partir para uma campanha contra o irmão. O infante Dom Afonso revoltava-se pela terceira vez e Dom Dinis montou cerco a Portalegre, a 27 de Abril. Dom Afonso resistiu mais tempo do que o esperado e o rei solicitou a intervenção da infanta Dona Branca, a irmã de ambos.

 

- Afonso anda mui estranho - anunciou Branca a Dinis. - Acha-se com mais direito ao trono do que vós!

Com dificuldades em controlar a sua fúria, o rei remeteu-se ao silêncio. E foi Frei Vasco Fernandes quem inquiriu:

- Em que se baseia Dom Afonso para afirmar tal?

Depois de uma hesitação, Branca acabou por responder:

- Baseia-se no facto de o matrimónio de meus pais só haver sido reconhecido pela Igreja em Junho de 1263!

Gerou-se um silêncio embaraçante, perante o abordar de um assunto julgado esquecido. À altura do seu matrimónio com Dona Beatriz, Afonso III havia sido acusado de bigamia pelo papa Alexandre IV, pois estava ainda casado com Matilde de Boulogne, apesar de os dois já viverem separados há quase uma década.

Seguiram-se cinco anos de contendas graves com a cúria pontifícia. O problema acabou por se resolver com a morte inesperada de Matilde, mas só passada mais meia década, Urbano IV legitimara o segundo consórcio do monarca.

- Afonso nasceu em Fevereiro de 1263 - prosseguiu Branca, - escassos quatro meses antes de o papa passar a bula de legitimação. Essa é a razão que ele dá para se considerar, digamos, mais legítimo do que o irmão rei.

Dinis tinha ganas de ir arrancar o estouvado do irmão ao castelo de Portalegre, a fim de lhe dar uma valente sova.

 

DinisQuadro.jpgHistória Universal da Literatura Portuguesa,
Abril 2006

 

Dom Afonso só se renderia em Outubro, logo partindo para o reino de Múrcia, onde possuía senhorios, por parte da esposa.

 

 O excerto é do meu romance sobre Dom Dinis, disponível em eBook na LeyaOnline (clique).

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publicado por Cristina Torrão às 11:01

12
Jan 16

 

 

Dom Dinis teve um neto com o seu nome, nascido a 12 de Janeiro de 1317.

 

«Estabeleceu-se uma acalmia no início do novo ano, ao dar-se um feliz acontecimento: Beatriz deu à luz mais um menino, a 12 de Janeiro, e o príncipe deu o nome de Dinis àquele filho. O rei disse a Isabel aquela ser a prova de que nada de grave sucederia. Afonso parecia cair em si, abstendo-se de continuar a hostilizar o pai, cumprindo enfim a tradição de dar ao seu herdeiro o nome do avô. Isabel, porém, pediu-lhe que não exagerasse na sua alegria e que não ignorasse os problemas existentes».

 

As desavenças entre o rei e o seu herdeiro Afonso, que desembocariam numa guerra civil, eram já graves, nesta altura. Dom Dinis parece ter tido muita esperança neste neto, que foi jurado como herdeiro do trono pelos concelhos do reino com apenas cinco meses (a 14 de Junho). Estaria Dom Dinis a pensar transmitir o trono diretamente ao neto, seu homónimo? 

 

«A 14 de Junho, Dinis deu mais uma vez azo à euforia que lhe provocara o nascimento do neto, ao exigir que os concelhos do reino jurassem o pequeno como herdeiro do trono. Uma atitude que, porém, caiu mal ao filho Afonso. A criança, de apenas cinco meses, não carecia de legitimidade, nem tão-pouco faltava ao reino um príncipe herdeiro adulto. Porque dava o soberano um sinal claro em relação ao neto, em vez de o fazer com o filho? Pretenderia ele passar por cima de Afonso?»

 

Porém, o pequeno infante Dinis morreu com cerca de um ano de idade. Era o segundo neto que lhe morria, depois de um outro chamado Afonso, nascido em 1315.

 

«Em Estremoz, Dinis recebeu a notícia da morte do neto que tinha o seu nome, nas vésperas do primeiro aniversário! Na sua desolação, a família real convencia-se de que Deus, por algum motivo, a castigava. Seria pelos diferendos entre os seus membros? O certo é que nem Isabel encontrava resposta para tanta calamidade e, em Fevereiro, Dinis resolveu ir em peregrinação a Santiago de Compostela.

Embora acompanhado de grande comitiva, incluindo os seus cavalos, o monarca andava muito a pé. Os prelados aconselhavam-no a assim fazer, pelo menos, metade do caminho.

(…)

O rei rezou longamente junto ao túmulo do apóstolo, pois bem tinha de lhe suplicar, novamente atacado pelo fantasma do rei velho e enfermo, abandonado por tudo e todos… E recordava que sua mãe o avisara de poder estar sujeito a destino semelhante. Desprezara o conselho, mas pedia agora ao santo que o livrasse de tal sina, permitindo-lhe ser rei até exalar o seu último suspiro, à semelhança de seu pai.

Suplicou paz para o reino… E um herdeiro para o filho! Porque já lhe levara Deus dois netos legítimos, não consentindo inclusive que o sucessor de Afonso tivesse o seu nome? Tanto se convencera de que aquele principezinho haveria de reinar um dia…

Ao pedir um herdeiro para o filho, suplicava igualmente que aquele possuísse mais bom senso do que Afonso, que se lhe assomava melancólico e rancoroso, rodeado de maus conselheiros. Que estava destinado ao reino de Portugal sob a regência de Dom Afonso IV? Por alguma razão, Dinis temia pela sua amada terra e, através do apóstolo, suplicava a Deus que lhe permitisse viver o suficiente, não só para assistir ao nascimento de um outro neto varão, como para ter oportunidade de se aperceber do carácter do pequeno. Desejava um príncipe mais alegre, mais aberto, mais dado aos prazeres e às belezas da vida».

 

Dos sete filhos do futuro Dom Afonso IV, apenas três atingiram a idade adulta: duas filhas, Maria e Leonor, e um filho que seria rei, Dom Pedro I, nascido a 8 de Abril de 1319, dois anos depois do pequeno Dinis.

 

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Dom Pedro I, neto de Dom Dinis 

 

Nota: as passagens entre aspas são excertos do meu romance D. Dinis - a quem chamaram o Lavrador, a ser reeditado em breve.

 

publicado por Cristina Torrão às 10:52

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As minhas informações sobre Dom Dinis são baseadas na biografia escrita pelo Professor José Augusto de Sotto Mayor Pizarro (Temas e Debates 2008)
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