Durante este ano, assinalarei aqui acontecimentos importantes do reinado de Dom Dinis, à medida que forem acontecendo os respetivos aniversários, assim como transcreverei excertos do meu romance sobre o Rei Lavrador.

12
Dez 16

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Depois das Cortes de Lisboa, em Outubro de 1323, em que as pretensões do príncipe herdeiro foram desleixadas, este retirou para Santarém, reunindo os seus apoiantes e decidido a apoderar-se do trono à força, conquistando Lisboa.

 

 

Auxiliado pelos filhos bastardos Afonso Sanches e João Afonso, Dom Dinis tomou posição no campo de Alvalade (ou, segundo José Mattoso, no lugar chamado Albogas, perto de Loures).

 

Estava tudo a postos para a batalha final da guerra civil, quando esta foi impedida por intervenção de Dona Isabel.

 

Isabel - Batalha Alvalade.jpg

Imagem daqui

 

Relato de Dom Gonçalo Pereira, bispo de Lisboa:

 

«Vieram acordar-me a meio da noite, disseram-me que a rainha se encontrava ali no meu paço e me queria falar. Disse-me:

- Dom Gonçalo, temos de impedir a batalha prestes a acontecer no campo de Alvalade, pois saldar-se-á num horrível banho de sangue! Estava eu a meio das minhas rezas, quando Deus me fez ver a desgraça: os corpos mutilados, os gritos desesperados dos feridos… E uma voz suplicou-me que me interpusesse entre os dois exércitos, acompanhada do mais alto representante de Deus que pudesse encontrar. Aqui em Lisboa sois vós, eminência!

- Mas que podemos nós os dois fazer contra dois exércitos, minha santa senhora? Sem armas, sem soldados que nos acompanhem… Seremos chacinados!

Ela replicou, cheia de serenidade:

- A voz garantiu-me que nada nos sucederá, se levarmos esta cruz!

Mostrou-me o objeto que os seus criados transportavam e, quando me admirei do tamanho, ela replicou que era para ser vista ao longe.

Ainda me recordo de pensar que Dona Isabel teria endoudecido, quando senti uma força misteriosa apoderar-se de mim! Parecia vir do brilho dos olhos da rainha, uma força que me impedia de a contradizer. Fizemo-nos ao caminho, no escuro da noite fria, acompanhados apenas pelos serviçais que transportavam a cruz e as lanternas. Ao acercarmo-nos do campo de batalha, já ao nascer do sol, Dona Isabel disse que só eu e ela estaríamos protegidos das setas pelas forças divinas, os criados teriam de procurar abrigo. Eu retorqui que, na minha idade, jamais conseguiria carregar com uma cruz daquelas, mas ela disse:

- Pegai nela, Dom Gonçalo, e vede como Deus a faz leve!

E tinha razão! Logrei pegar na cruz e erguê-la! Se não o houvesse experimentado, nunca acreditaria. Mas ainda perguntei à rainha:

- E quem guiará o meu cavalo? Fico sem mãos livres para as rédeas…

- Deus - respondeu ela. - Tende Fé, eminência!

A minha montada seguia a de Dona Isabel como se realmente alguma força a guiasse, nem sequer se assustava com a zoada das setas, que voavam em arco por cima de nós. O mesmo não se podia dizer de mim. Confesso que nunca senti tanto medo na minha vida e bradei para a rainha:

- Morreremos, é o nosso fim!

- Fechai os olhos, Dom Gonçalo, e rezai!

- Fechar os olhos? Mas como saberei para onde ir?

- Rezai, Dom Gonçalo, e confiai em Deus!

Obedeci, nada mais me restava. E dei por mim com a cabeça encostada à cruz, a confessar os meus pecados, suplicando absolvição, tão convencido estava que chegara a minha hora. Não faço ideia quanto tempo assim estive, só sei que dei conta do silêncio que se havia apoderado de todo o campo. O meu cavalo parou, sem que lhe houvesse dado qualquer ordem. Abri os olhos e vi os vossos cavaleiros e os do príncipe virem ao nosso encontro. Chegaram no momento certo, pois comecei a tremer violentamente e a cruz pôs-se-me de repente tão pesada que, não fossem eles, tê-la-ia deixado cair ao chão. E só deixei de tremer aqui na vossa tenda».

 

Não foi, porém, estabelecido nenhum acordo de paz. A pedido da mãe, o príncipe terá concordado em desistir dos seus intentos, mas declarando que não mais desejaria falar com o pai, nem encontrar-se com ele, pelo que retirava para Santarém.

 

Dom Dinis, no entanto, dirigiu-se àquela cidade, em Fevereiro de 1324, sofrendo grande humilhação, quando as portas se lhe mantiveram fechadas. Houve duros combates, mas conseguiu-se um acordo entre o rei e o príncipe a 26 de Fevereiro. Dom Dinis comprometeu-se a aumentar as rendas do filho e a retirar o cargo de mordomo-mor ao bastardo Afonso Sanches.

 

Dom Dinis morreria a 7 de Janeiro de 1325, dia em que seu filho Afonso foi aclamado rei de Portugal, o quarto desse nome.

 

Dom Dinis Papel (1).JPG

 

O meu romance sobre Dom Dinis está à venda sob a forma de ebook, por exemplo, na LeYa Online, na Wook, na Kobo e na Amazon (pagamento em euros); Amazon (pagamento em dólares).

 

No Brasil, está disponível na Livraria Saraiva e na Livraria Cultura.

Para adquirir a versão em papel, contacte-me através do email andancas@t-online.de.

 

 

publicado por Cristina Torrão às 11:23

18
Nov 16

 

- Que se passa?

Isabel respondeu num sussurro:

- Tive um sonho…

- Um pesadelo?

- Não sei… Uma mensagem… Ou uma premonição…

Mais uma? Dinis fez esforço por vencer o enfado, pois haveria uma razão forte que a trouxera ali, numa noite tão fria. Acabou por dizer:

- Sentai-vos e contai-me o que vos atormenta!

Isabel assim fez. Depois de pousar a vela sobre a mesinha ao lado da cama, iniciou o seu relato:

- Há cerca de uma semana, andando para os lados da Azambuja, deparei com um eremita à beira da estrada. Parecia muito perturbado e eu desmontei da minha mula e perguntei-lhe se havia mister do meu auxílio. Ele não respondeu, limitou-se a fixar-me numa tristeza infinita. Já tratei de muitos enfermos e assisti a muitas aflições, mas nunca vira olhos tão tristes. Insisti na minha pergunta. Depois de me fixar durante mais alguns momentos, ele abanou a cabeça e afastou-se de mim sem uma palavra.

Isabel baixou a cabeça e prosseguiu:

- Não mais olvidei aquele olhar. Passado uns dias, tornei ao local, a fim de o procurar. Mas não o encontrei. Perguntei por ele nas aldeias da região, descrevendo-o o melhor que podia. Ninguém parecia conhecê-lo. Indicaram-me alguns eremitas que por ali viviam e fui ter com eles. Mas nenhum era o que eu havia visto. O homem parecia ter-se esfumado, ou sido engolido pela terra… Tentei olvidá-lo. Mas hoje…

Começou a tremer mais violentamente:

- Sonhei com ele…

- Ora, ficastes impressionada com a sua figura…

- No sonho, ele falou comigo. E disse-me… - Olhou-o, muito trágica: - Que Constança havia morrido!

 

A 18 de Novembro de 1313 morreu a rainha Dona Constança de Castela, antiga infanta portuguesa, filha de Dom Dinis e Dona Isabel, com apenas 23 anos.

 

Constança 1.jpg

Para mais informações sobre Dona Constança ver o texto publicado a propósito do seu nascimento.

 

Nota: não encontrei nenhuma representação de Dona Constança. Deparei, nas minhas pesquisas, com esta imagem de Sansa Stark, uma personagem d'As Crónicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin. Decidi usá-la porque se aproxima muito da Constança que descrevo no meu romance.

 

Dom Dinis Papel (1).JPG

 

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publicado por Cristina Torrão às 11:39

02
Nov 16

Pedro III de Aragão.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

Pedro III de Aragão
Por Manuel Aguirre Y Monsalbe, 1854

Imagem Wikipedia

 

 

 

 

 

 

 

A 2 de Novembro de 1285 morreu o rei Dom Pedro III de Aragão, denominado o Grande, pelas suas conquistas militares, com apenas quarenta e seis anos. Dom Pedro III era o pai da rainha Santa Isabel. Não sabemos qual o efeito que o acontecimento teria causado em sua filha, que já estava em Portugal há dois anos e meio. Segundo a tradição, Dona Isabel era muito chegada ao pai, palavras que tudo e nada dizem. No entanto, considerando que Dona Isabel estava ainda a dois meses de completar quinze anos e seria dona de um carácter sensível, eu criei esta cena no meu romance:

 

De repente, os alões deitados em frente à lareira levantaram-se, a ladrar como doidos. Dinis bradou:

- Mas que vem a ser isto?

- Virá por aí alguém? - sugeriu Pêro Anes Coelho.

- A esta hora? Num tempo destes?

Dinis virou-se para Isabel e assustou-se: a cor sumira das suas faces, a rainha apresentava uma palidez cadavérica, uma das mãos agarrava o vestido à altura do peito. O monarca inquiriu:

- Que tendes? Não vos sentis bem?

Isabel apontou-lhe olhos aterrorizados:

- Uma desgraça sucedeu!

- Que dizeis?

- As más novas não tardarão!

Apesar de assustado, Dinis não queria conceber a ideia de que o momento doce e mágico terminara. Aquela noite pertencia-lhes, não lhes podia fugir! Pegou-lhe nas mãos, invulgarmente gélidas, e acrescentou:

- Enganais-vos! Quem viria a esta hora dar-nos más notícias? Os cães ficaram nervosos com o uivar dos lobos, é só.

Isabel fixava-o angustiada. E, de repente, irromperam na sala dois cavaleiros com os seus capotes cobertos de neve. Isabel começou a tremer, mas Dinis teve de a largar para ir ajudar Pêro Anes Coelho e João Anes Redondo a segurar os alões, que ameaçavam despedaçar as vestes dos recém-chegados.

- Quem sois? - bradou o rei. - Que fazeis aqui? Porque vos deixaram entrar?

- Vimos de Aragão, Alteza!

- Meu Deus! - gritou Isabel.

Levantou-se, foi ao encontro deles e os cães acalmaram-se como por encanto. Dirigiu-se mortificada aos cavaleiros:

- Trata-se de meu pai, não é verdade? Que lhe sucedeu? Dizei! Dizei!

- Lamentamos ter de vos informar que el-rei Dom Pedro III se finou no passado dia 2 deste mês de Novembro.

Gerou-se um silêncio sepulcral. Até que se ouviram mais uivos. Isabel desfaleceu de encontro a Dinis, que guisou de a segurar nos braços. Aquele corpo, leve como uma pena, que ainda há momentos emanava calor, envolvido num vago perfume a rosas, estava agora inanimado e frio. Como se ela própria houvesse morrido…

Carregando-a nos braços, Dinis desceu a escada exterior da torre de menagem e caminhou pela neve que lhe chegava às canelas. Pêro Anes Coelho, que os seguira, bateu à porta da casa da rainha, arrancando as damas e as camareiras do seu sono, que mais sobressaltadas ficaram, ao dar com Isabel desfalecida nos braços do rei.

 

Dom Dinis Série (1).JPG

 

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publicado por Cristina Torrão às 11:01

18
Out 16

Em Outubro de 1324, Dom Dinis fez-se ao caminho de Santarém, como de costume. Tinha-se tornado um hábito passar o Natal e o fim do ano naquela cidade, só regressando a Lisboa na Primavera. Naquele ano, porém, Dom Dinis fora desaconselhado a empreender a viagem, pois estava muito doente. A rainha Dona Isabel tratava dele, administrando-lhe pessoalmente os remédios.

DinisCoimbra.jpg

 

 

 

 

 

Pormenor da estátua de Dom Dinis, em Coimbra

 

 

 

 

Durante a viagem, Dom Dinis sentiu-se tão mal, que Dona Isabel mandou chamar o filho Dom Afonso, que se encontrava em Leiria. Depois de uma desgastante guerra civil, o rei e o seu herdeiro haviam assinado as pazes a 26 de Fevereiro daquele ano. A guerra terminara, mas, a nível pessoal os dois continuavam desentendidos, não se falavam e evitavam encontrar-se. Por isso se quedava Dom Afonso em Leiria.

 

Vendo o pai em tão mau estado, porém, o infante tudo fez para cuidar dele e, com a sua ajuda, Dom Dinis chegou a Santarém, onde melhorou um pouco. Mas o destino do Rei Lavrador estava traçado. Sentindo a morte aproximar-se, fez o seu terceiro e último testamento a 31 de Dezembro. Morreria a 7 de Janeiro de 1325.

 

Dona Isabel 1.jpg

 

 

 

 

 

 

Imagem encontrada aqui

 

 

 

Cinco dias antes, Dona Isabel tinha declarado querer usar o hábito de Santa Clara até ao fim da sua vida, em sinal de viuvez e humildade, desejando ser sepultada com ele. Depois da morte de Dom Dinis, passaria inclusive a viver no convento de Santa Clara, em Coimbra, embora nunca tenha professado. A 22 de Dezembro de 1325, a rainha fez um segundo testamento, onde exprime o desejo de ali ser enterrada, embora o seu marido repousasse no mosteiro de Odivelas. Dona Isabel morreu em Estremoz a 4 de Julho de 1336 (onze anos depois de Dom Dinis). O seu corpo foi transportado para Coimbra, como havia sido seu desejo.

 

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publicado por Cristina Torrão às 11:20

15
Out 16

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História Universal da Literatura Portuguesa

 

Em Outubro de 1323 (não se sabe em que dias) reuniram-se Cortes em Lisboa, a pedido do infante Dom Afonso, o herdeiro de Dom Dinis. Nstas Cortes reacendeu-se a guerra civil, que já se dera por terminada, uma guerra que tinha a sua origem nos desentendimentos entre o rei e o seu herdeiro.

 

O infante Dom Afonso exigia, entre outras coisas, que fosse retirado a seu meio-irmão Afonso Sanches o cargo de mordomo-mor, assim como as terras e dinheiros que o pai de ambos lhe havia doado. As suas pretensões foram, porém, desleixadas, enquanto se tratou de outros assuntos, o que acabou com a paz frágil que fora negociada entre pai e filho em Leiria, no ano anterior. A seguir ao cerco a Coimbra, essa paz tinha sido possível através da mediação da rainha Dona Isabel e do conde Dom Pedro de Barcelos.

 

Deixo-vos com um excerto do meu romance relativo às Cortes de Lisboa, quando o príncipe herdeiro viu os seus desejos ignorados pelos pares do reino, sem que seu pai interviesse a seu favor:

 

Ninguém abriu a boca. Mas Dinis arrependeu-se daquele procedimento em relação ao príncipe. Apesar de Afonso se manter digno, a humilhação era enorme, principalmente perante a notória satisfação dos meios-irmãos. Naquele instante, o rei apercebeu-se de que havia exagerado na sua proteção e no seu favorecimento dos bastardos.

Não podia, porém, voltar atrás, dando o dito por não dito e, por isso, nada fez para impedir que o seu herdeiro voltasse as costas àquela assembleia.

No fim daquele dia, o rei foi informado que o príncipe deixara a cidade e, passado duas semanas, soube que juntava os seus partidários em Santarém, planeando marchar sobre Lisboa, a fim de se apoderar do trono à força!

Era a rutura total. Embora Isabel não o dissesse, Dinis sabia que ela o considerava responsável pela situação. Ele próprio assim se sentia. A rainha recolheu-se novamente em jejuns e penitências, recusando falar com o consorte que, não obstante o arrependimento, não podia deixar de defender o seu trono. Passou o mês de Novembro a organizar um exército, formado principalmente pelos combatentes do concelho de Lisboa.

A questão decidir-se-ia numa batalha em campo aberto, onde não existiria lugar para piedades nem perdões. As tropas digladiar-se-iam até haver um vencedor.

Os exércitos aquartelaram-se na zona do campo de Alvalade.

 

 

 

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publicado por Cristina Torrão às 11:02

28
Set 16

 

 

 

Os desentendimentos entre Dinis e Dona Isabel, baseados nos conflitos que opunham o rei ao seu herdeiro, culminaram com o desterro da Rainha Santa em Alenquer, acusada pelo marido de defender o filho contra ele próprio.

 

- Chega! - bradou Dinis com quanta força tinha. E, depois de recuperar o ar, acrescentou: - Não tornarei a consentir na vossa intromissão. Ordeno a vossa prisão numa das vossas vilas, privada de todas as vossas rendas!

Isabel olhava-o indignada, mas composta:

- Prescindis então do meu auxílio?

- Auxílio?! Até agora, apenas contribuístes para o agravar da contenda, dando cobro a vosso filho, que comete traição ao virar-se contra o seu senhor e pai. Mas não vos aflijais, não mandarei atirar-vos para um calabouço. Escolhei uma das vossas vilas e vivereis na vossa residência habitual, na companhia das vossas damas, e podereis deslocar-vos dentro do concelho. Mas não mais que isso! Encarregarei guardas de vos vigiar. - Fechou o punho: - Ai de vós se vos atreverdes a sair de lá!

Isabel encarou-o desafiadora:

- Pensais que me faria grande mossa, se me atirásseis para um calabouço? Mesmo lá eu estaria na companhia de Deus e de São Francisco.

- Não me provoqueis…

- Faríeis melhor se olhásseis por vossa saúde! Não estais com bom aspeto, meu rei e senhor. Pálido, apesar da corpulência, os olhos raiados de sangue, o suor sobre a testa… Tende cautela convosco!

- Desaparecei da minha vista! - bradou Dinis, ignorando as tonturas e o bater desordenado do seu coração. - Não mais vos quero ver! Poupai-me à vossa presença, enquanto for vivo!

Isabel deu meia-volta e saiu. Estafado, Dinis deixou-se cair para cima de uma cadeira.

 

 

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publicado por Cristina Torrão às 10:53

22
Set 16

Dinis e Isabel - Leiria.jpg

 

 

 

Estátuas de Dom Dinis e de Dona Isabel em Leiria

 

 

 

 

Na última década de vida de Dom Dinis, os seus desentendimentos com Dona Isabel eram sobretudo baseados nos conflitos entre o rei e o seu herdeiro que desembocaram numa guerra civil. Parece ponto assente que Dona Isabel defendia o filho, pelo menos, disso foi acusada pelo marido.

 

Recostado na sua cadeira, o rei inquiriu:

- Vindes repetir aquilo que já me dissestes dezenas de vezes?

- Não propriamente. Um novo receio me atinge.

- Deveras?

- Muitos dos descontentes que se vão queixar a nosso filho podem meter-lhe ideias na cabeça…

Isabel interrompeu-se e o rei inclinou-se sobre a mesa, onde pousou os braços cruzados:

- Que tipo de ideias?

Contra o que lhe era habitual, a rainha hesitou, mas acabou por responder:

- Afonso completou vinte anos, é casado há quase dois… É bem possível que haja por aí gente que lhe lamba as botas na esperança de que ele substitua o pai o mais lesto possível, a fim de que ele satisfaça as suas reivindicações.

Dinis não sabia se havia de desatar às gargalhadas, ou de dar um murro na mesa. A seriedade com que Isabel o encarava acabou por o decidir: mostrar-lhe-ia que tal afirmação só lhe provocava escárnio. Riu-se. E, quanto mais se ria, mais vontade sentia de o fazer. Acabou por dar gargalhadas sinceras, mas a rainha não se deixou impressionar:

- Quereis fazer-me crer que considerais tais suposições absurdas? Que não considerais o perigo?

- Perigo de quê? - replicou ele, ainda entre risos. - Que o meu filho participe numa conspiração, com o fito de me mandar desta para melhor? Sim, porque se essa gente está à espera que eu morra em breve, bem desiludida ficará! - Endireitou-se, de peito feito: - Sinto-me mais saudável do que nunca!

- Eu sei.

- Sim, claro - replicou ele irónico. - Como pude eu pensar que tal pormenor vos escapasse?

- Não considerais a hipótese da deposição?

- Que dizeis?!

Dinis estava agora furioso, Isabel acrescentou:

- Quando existe consenso suficiente à volta do príncipe herdeiro…

- Credes mesmo que Afonso teria poder suficiente para me pôr em tais dificuldades?

No silêncio que se seguiu, Dinis ouvia o eco das próprias palavras, ditas num tom alterado, mais agudo do que o costume. Na verdade, o rei fora novamente atingido pelo receio repentino que lhe causava a lembrança do avô, isolado em Sevilha, deposto pelos nobres do seu reino, que se haviam juntado à volta do filho Sancho. À altura, Alfonso X não era muito mais velho do que ele, que acabara de completar os cinquenta anos.

 

 

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publicado por Cristina Torrão às 10:40

12
Set 16

Tratado Alcanices - selo.jpg

 

 

 

 

Selo comemorativo (circulou de 12-09-1997 a 30-09-2001)

 

 

 

12 de Setembro é uma data muito importante na História de Portugal. Foi neste dia, no ano de 1297, que se definiram novas fronteiras entre Portugal e Castela, no Tratado de Alcanices, fronteiras que sofreram alterações mínimas nos últimos 719 anos, o que faz de Portugal um caso único na Europa. Foi através do Tratado de Alcanices que Moura, Serpa, Noudar e Mourão foram incluídas no território português, além de alguns lugares de Ribacoa, como Castelo Rodrigo, Almeida e Sabugal.

 

Tratado Alcanices - Territórios.jpg

Fonte da imagem

 

O Tratado de Alcanices, celebrado entre Dom Dinis e Dom Fernando IV, sob a tutela da mãe deste, Dona Maria de Molina, pois o rei castelhano tinha apenas onze anos, serviu ainda para estabelecer um duplo consórcio:

 

- o infante Dom Afonso de Portugal, futuro rei Afonso IV, desposaria Dona Beatriz de Castela, irmã de Fernando IV. O infante português tinha, à altura, apenas seis anos, a infanta castelhana era um pouco mais nova. Casariam em Maio de 1309.

- a infanta Dona Constança de Portugal, de sete anos, ficou prometida ao próprio rei Fernando IV de Castela.

 

Em casos destes era costume as noivas mudarem-se para o seu novo lar, a fim de serem criadas pelos sogros, pelo que Dom Dinis e Dona Isabel trocaram a filha Constança pela infanta castelhana. Dona Maria de Molina e Dona Isabel prometeram-se cuidar da filha alheia como se da própria se tratasse.

 

Solicitaram-se dispendiosas bulas de dispensa de parentesco ao papa, pois os infantes castelhanos eram primos de Dom Dinis, tendo sido o pai deles, o falecido Sancho IV de Castela, tio do rei português.

 

Também se solicitaram bulas de legitimação do jovem rei Fernando IV e de seus irmãos, já que o casamento dos pais nunca havia sido legitimado, igualmente por parentesco. Fernando IV foi, durante muito tempo, contestado na sua condição de soberano por tios e primos e manteve-se no trono não só devido ao pulso firme de sua mãe Maria de Molina, mas também com a ajuda de Dom Dinis.

 

Tratado Alcanices.jpg

Tratado Alcanices (versão portuguesa arquivada na Torre do Tombo)

 

Da parte castelhana, o dinheiro para as bulas só foi disponibilizado quatro anos mais tarde, em Junho de 1301, depois das Cortes de Burgos/Zamora. Os bispos de Lisboa e do Porto acompanharam o arcebispo de Toledo a Roma e, em Setembro de 1301, Bonifácio VIII outorgou as bulas que foram solenemente publicadas na catedral de Burgos a 7 Dezembro de 1301.

 

O casamento do rei Fernando IV com Dona Constança de Portugal realizou-se em Janeiro de 1302, fazendo da infanta portuguesa rainha de Castela. Durou apenas dez anos, terminando com a morte súbita de Fernando IV, a três meses do seu 27º aniversário, já tendo nascido o seu herdeiro, o futuro Afonso XI de Castela, neto de Dom Dinis e de Dona Isabel. Dona Constança morreu pouco tempo depois com apenas 23 anos, vítima de uma febre.

 

Dom Dinis Série (1).JPG

 

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publicado por Cristina Torrão às 10:53

09
Set 16

 

 

 

Continuando a tese de que Dom Dinis teria tido uma relação difícil com Dona Isabel, um excerto do meu romance em que o rei se revela muito amargurado:

 

Naquele momento, Dinis odiou-a por ela o submeter ao que ele considerava tirania. Isabel era uma tirana, que o sujeitava às suas vontades e aos seus caprichos! E a Dinis pouco importava que tais vontades e caprichos adviessem da sua devoção e da sua espiritualidade. Recusando-se a cumprir os seus deveres primordiais, a chamada rainha santa, a quem ninguém se atrevia a pôr defeitos e cujas virtudes se exaltavam, cometia afinal uma falta imperdoável!

Porque lhe destinara Deus tal consorte? Por mais pecados que ele cometesse e por mais defeitos que possuísse, achava o castigo descomunal! Ele, que se impunha perante o reino, falhava com a própria consorte!

Isabel nunca lhe obedecera, nem nunca se lhe submetera, mesmo quando lhe dera a impressão de o fazer. Aquela rainha não acatava ordens de ninguém que pertencesse a este mundo!

 

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publicado por Cristina Torrão às 10:30

01
Set 16

Manesse P 3.jpg

 

 

 

 

 

Imagem Codex Manesse

 

 

 

 

 

Sou de opinião que a relação entre Dom Dinis e Dona Isabel não teria sido fácil, situação aliás latente na narração do milagre das rosas. Embora essa lenda não seja exclusiva do par real português (o milagre das rosas atribuído a Santa Elisabete da Turíngia é semelhante), é evidente a não-aceitação de Dom Dinis de tanto fervor caritativo da sua rainha. No meu romance, eu alargo essa rejeição ao fervor espiritual de Dona Isabel.

É também curioso constatar que, em quarenta e quatro anos de casamento, o par real teve apenas dois filhos, nascidos entre 1290 e 1291. Dom Dinis só morreria em 1325, trinta e quatro anos depois de nascer o seu último filho com Dona Isabel.

 

Em meados do mês, quando os calores abafados deram lugar a trovoadas monumentais, chegaram finalmente notícias. De Aragão! Com apenas vinte e seis anos, Afonso III morrera de repente, nas vésperas do seu casamento com a filha de Eduardo I de Inglaterra! À falta de um herdeiro, o trono fora ocupado por seu irmão Jaime.

Isabel isolou-se totalmente, ficando inalcançável. Acordando no meio das noites de trovejar violento, sozinho e triste, o rei deu consigo a desejar ter Aldonça a seu lado. E continuava a perguntar-se que tipo de sentimentos o ligava à consorte. Durante aqueles quase três anos de felicidade em comum, pensara, muitas vezes, que Isabel era a mulher da sua vida. Parecia não se encher dela, como normalmente acontecia com as barregãs. Por outro lado, toda aquela espiritualidade, assim como as qualidades de curandeira e vidente, assustavam-no. Não deixava de ser uma ironia na vida dele: a mulher que ele mais desejava, afigurava-se-lhe inalcançável. Parecia-lhe estar longe, apesar de viver a seu lado.

Algumas semanas mais tarde, Isabel procurou-o. Parecia flutuar, em vez de andar. A palidez e a magreza davam um tom transparente à pele, realçando o negrume dos olhos. Na sua amargura, Dinis não conseguiu evitar uma tirada áspera:

- Se assim continuais, cedo fareis companhia a vosso irmão!

Logo se arrependeu daquela rudeza, mas Isabel manteve o semblante sereno, imune, como sempre ficava depois de meditação e jejum intensivos. E retorquiu muito calma:

- Não vos preocupeis! Ainda me estão reservados vários anos de vida.

Dinis absteve-se de perguntar quem lhe assegurara tal.

 

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O meu romance sobre Dom Dinis está à venda sob a forma de ebook, por exemplo, na LeYa Online, na Wook, na Kobo e na Amazon (pagamento em euros); Amazon (pagamento em dólares).

 

No Brasil, está disponível na Livraria Saraiva e na Livraria Cultura.

Para adquirir a versão em papel, contacte-me através do email andancas@t-online.de.

 

 

publicado por Cristina Torrão às 11:05

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As minhas informações sobre Dom Dinis são baseadas na biografia escrita pelo Professor José Augusto de Sotto Mayor Pizarro (Temas e Debates 2008)
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