Durante este ano, assinalarei aqui acontecimentos importantes do reinado de Dom Dinis, à medida que forem acontecendo os respetivos aniversários, assim como transcreverei excertos do meu romance sobre o Rei Lavrador.

07
Mar 16

A 7 de Março de 1322, Dom Dinis cercou a cidade de Coimbra, que havia sido conquistada por seu filho a 31 de Dezembro de 1321. Também Dona Isabel para lá se dirigiu, deixando o seu desterro em Alenquer, ordenado pelo próprio Dom Dinis, que a acusava de pactuar com o filho.O reino português encontrava-se em plena guerra civil, entre Dom Dinis e o seu herdeiro, futuro Dom Afonso IV, uma guerra que tanto desgastou o rei, que bem pode ter acelerado a sua morte.

 

Como se vê, havia um grande drama familiar por trás da guerra que dilacerou o reino português no início do século XIV, o que não deixa de ser estranho, tendo em conta os protagonistas: um rei culto, justo e amigo do povo; uma rainha exemplar, que foi canonizada; o filho dos dois!

 

DinisCoimbra.jpg

 

 

 

 

 

Pormenor da estátua de Dom Dinis em Coimbra

 

 

 

 

Vendo a derrota à frente, Dinis considerou ser Isabel a sua última esperança. Pediu para conferenciar com ela e pediu-lhe desesperado:

- Suplico-vos que guiseis estabelecer a paz sem que haja vencedor nem derrotado!

Isabel olhou-o amargurada:

- Pedis-me o impossível!

Dinis aproximou-se dela e, pegando-lhe nas mãos, insistiu:

- Intercedei junto de Deus! Diz-se que já fizestes milagres… Não o podereis tornar a fazer?

A rainha engoliu em seco e replicou:

- A graça de fazer milagres só é concedida quando Deus assim o entende, não depende da minha vontade. Sou um mero instrumento nas Suas mãos.

- Quereis dizer que nada podeis fazer por mim?

O seu desespero mortificava-a. O rei raramente lhe vira o rosto tão dilacerado pelo sofrimento e, num impulso, beijou-lhe as mãos. Ela fechou os olhos por um momento e quando os abriu, disse:

- Darei o meu melhor! Mas haverei mister de auxílio, de um mediador, a quem Afonso dê realmente ouvidos. E não me ocorre mais ninguém tão adequado como o conde de Barcelos!

Dinis estremeceu perante a menção daquele seu bastardo que ele destituíra do cargo de alferes-mor e da maior parte das suas rendas, obrigando-o ao exílio. Até àquele momento, considerara-o um traidor. Agora, deu consigo a perguntar:

- Pensais que ele consentirá em falar comigo?

- Com certeza. Pedro Afonso é uma alma gentil, que não guarda rancor… E que vos ama e respeita como ninguém!

 

Isabel - Batalha Alvalade.jpg

 

 

 

 

Imagem daqui

 

 

 

Graças às intervenções de Dona Isabel e do conde Pedro de Barcelos, o rei retirou para Leiria e o infante para Pombal. Em Maio, encontraram-se em Leiria e assinaram um acordo de paz. Dom Dinis, porém, que já passara dos sessenta, foi acometido de doença grave à sua chegada a Lisboa.

 

Ao chegar a Lisboa, confiante que, podendo enfim repousar, o seu estado melhorasse, Dinis constatou o contrário: acordou uma madrugada muito prostrado, confuso da cabeça e sem conseguir articular palavras! Chamaram-se os físicos, que o sangraram, e também a rainha preparou as suas poções, desfazendo-se em mil cuidados e desdobrando-se em rezas.

Passado uns dias, Dinis melhorou um pouco. Embora a fraqueza ainda o impedisse de deixar o leito, viu-se capaz de falar e aproveitou para suplicar à rainha que não o deixasse, sentindo-se muito dependente dela. E, a 20 de Junho daquele ano de 1322, decidiu fazer o seu testamento.

(…)

Nos piores momentos da sua enfermidade, os cuidados e a dedicação de Isabel provaram ser imprescindíveis. O rosto dela iluminava o dia mais triste, a sua voz confortava, a sua serenidade dava confiança e coragem e o toque das suas mãos era bálsamo para almas aflitas. Isabel era a esperança transformada gente, como se Deus houvesse decidido dar uma forma humana a esse sentimento. E, apesar de haver amado outras mulheres e de, muitas vezes, haver odiado a rainha, Dinis não desejaria ter qualquer outra perto de si naquelas horas difíceis.

 

Dom Dinis melhorou. Mas a paz que assinou com o filho foi quebrada cerca de ano e meio mais tarde, depois das Cortes de Lisboa, em Outubro de 1323. A guerra civil entraria na sua última fase.

 

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Dom Afonso IV

 

 

 

 

Os excertos são do meu romance sobre Dom Dinis que pode ser adquirido na LeyaOnline por 6,99 € (clique). Também na Wook.

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publicado por Cristina Torrão às 11:14

05
Mar 16

Quantas contendas são provocadas e quantas mágoas se guardam por palavras silenciadas? Palavras que se adivinham, mas que não são ditas? Não se duvida do amor de um pai por um filho e, no entanto, se não for continuamente expresso, seja por falas, seja por atos, deixará o filho eternamente insatisfeito, desconfiando desse afeto. Qualquer pessoa, desde o mais baixo serviçal, ao mais alto dos soberanos, há mister da aprovação e do apoio expresso de seus orientadores. É um erro abrigarmo-nos sob a capa das evidências. Amar não é apenas um conceito, é prová-lo, todos os dias, a todas as horas. Quer se trate de um pai, de uma mãe, seja de quem for: quem não pratica o amor, não o recebe de volta. Quanto desprezo, quanto abandono e, muitas vezes, quanto sarcasmo aguentaram aqueles de quem se diz não serem bons filhos?

 

(palavras da rainha Santa Isabel in "Dom Dinis - a quem chamaram o Lavrador")

 

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 O romance está disponível sob a forma de eBook na LeyaOnline (clique).

publicado por Cristina Torrão às 11:22

02
Mar 16

Cover neu3 Dom Dinis 100.jpg

 

Duas palavrinhas sobre a capa do meu eBook Dom Dinis - a quem chamaram o Lavrador:

 

O design é da autoria do meu marido Horst Neumann!

Vielen Dank, lieber Hotti :-)

 

A imagem pertence a um códice alemão do século XIV, conhecido por Codex Manesse. A sua utilização para este efeito foi devidamente autorizada pela Biblioteca da Universidade de Heidelberg.

 

O eBook pode ser adquirido na LeyaOnline por 6,99 € (clique).

publicado por Cristina Torrão às 11:04

25
Fev 16

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Uma das dificuldades em escrever um romance histórico é enquadrar a informação histórica no enredo, doseando-a. O meu romance sobre Dom Dinis revelou-se particularmente difícil, porque o afã legislativo do Rei Lavrador foi notável.

O livro foi editado em 2010. Passados cinco anos, tornei a pegar no texto e achei-o bastante maçudo. Em muitos passos, a informação histórica afogava o enredo, noutros, atrasava-o, tornando a leitura fastidiosa.

Passei os últimos quatro meses a reler, corrigir, modificar, apagar, reestruturar...

E posso finalmente anunciar a reedição revista e melhorada de Dom Dinis - a quem chamaram o Lavrador, com nova capa.

 

Está disponível sob a forma de ebook na LeYa online, por 6,99 € (clique).

 

Em breve, estará igualmente disponível noutras plataformas, como Wook, Fnac.pt, Amazon, Apple Store, Barnes & Noble, Gato Sabido, IBA, Kobo, Livraria Cultura, Submarino.

 

 

publicado por Cristina Torrão às 11:02

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As minhas informações sobre Dom Dinis são baseadas na biografia escrita pelo Professor José Augusto de Sotto Mayor Pizarro (Temas e Debates 2008)
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