Durante este ano, assinalarei aqui acontecimentos importantes do reinado de Dom Dinis, à medida que forem acontecendo os respetivos aniversários, assim como transcreverei excertos do meu romance sobre o Rei Lavrador.

12
Dez 16

Afonso IV Biografia.jpg

 

 

 

Depois das Cortes de Lisboa, em Outubro de 1323, em que as pretensões do príncipe herdeiro foram desleixadas, este retirou para Santarém, reunindo os seus apoiantes e decidido a apoderar-se do trono à força, conquistando Lisboa.

 

 

Auxiliado pelos filhos bastardos Afonso Sanches e João Afonso, Dom Dinis tomou posição no campo de Alvalade (ou, segundo José Mattoso, no lugar chamado Albogas, perto de Loures).

 

Estava tudo a postos para a batalha final da guerra civil, quando esta foi impedida por intervenção de Dona Isabel.

 

Isabel - Batalha Alvalade.jpg

Imagem daqui

 

Relato de Dom Gonçalo Pereira, bispo de Lisboa:

 

«Vieram acordar-me a meio da noite, disseram-me que a rainha se encontrava ali no meu paço e me queria falar. Disse-me:

- Dom Gonçalo, temos de impedir a batalha prestes a acontecer no campo de Alvalade, pois saldar-se-á num horrível banho de sangue! Estava eu a meio das minhas rezas, quando Deus me fez ver a desgraça: os corpos mutilados, os gritos desesperados dos feridos… E uma voz suplicou-me que me interpusesse entre os dois exércitos, acompanhada do mais alto representante de Deus que pudesse encontrar. Aqui em Lisboa sois vós, eminência!

- Mas que podemos nós os dois fazer contra dois exércitos, minha santa senhora? Sem armas, sem soldados que nos acompanhem… Seremos chacinados!

Ela replicou, cheia de serenidade:

- A voz garantiu-me que nada nos sucederá, se levarmos esta cruz!

Mostrou-me o objeto que os seus criados transportavam e, quando me admirei do tamanho, ela replicou que era para ser vista ao longe.

Ainda me recordo de pensar que Dona Isabel teria endoudecido, quando senti uma força misteriosa apoderar-se de mim! Parecia vir do brilho dos olhos da rainha, uma força que me impedia de a contradizer. Fizemo-nos ao caminho, no escuro da noite fria, acompanhados apenas pelos serviçais que transportavam a cruz e as lanternas. Ao acercarmo-nos do campo de batalha, já ao nascer do sol, Dona Isabel disse que só eu e ela estaríamos protegidos das setas pelas forças divinas, os criados teriam de procurar abrigo. Eu retorqui que, na minha idade, jamais conseguiria carregar com uma cruz daquelas, mas ela disse:

- Pegai nela, Dom Gonçalo, e vede como Deus a faz leve!

E tinha razão! Logrei pegar na cruz e erguê-la! Se não o houvesse experimentado, nunca acreditaria. Mas ainda perguntei à rainha:

- E quem guiará o meu cavalo? Fico sem mãos livres para as rédeas…

- Deus - respondeu ela. - Tende Fé, eminência!

A minha montada seguia a de Dona Isabel como se realmente alguma força a guiasse, nem sequer se assustava com a zoada das setas, que voavam em arco por cima de nós. O mesmo não se podia dizer de mim. Confesso que nunca senti tanto medo na minha vida e bradei para a rainha:

- Morreremos, é o nosso fim!

- Fechai os olhos, Dom Gonçalo, e rezai!

- Fechar os olhos? Mas como saberei para onde ir?

- Rezai, Dom Gonçalo, e confiai em Deus!

Obedeci, nada mais me restava. E dei por mim com a cabeça encostada à cruz, a confessar os meus pecados, suplicando absolvição, tão convencido estava que chegara a minha hora. Não faço ideia quanto tempo assim estive, só sei que dei conta do silêncio que se havia apoderado de todo o campo. O meu cavalo parou, sem que lhe houvesse dado qualquer ordem. Abri os olhos e vi os vossos cavaleiros e os do príncipe virem ao nosso encontro. Chegaram no momento certo, pois comecei a tremer violentamente e a cruz pôs-se-me de repente tão pesada que, não fossem eles, tê-la-ia deixado cair ao chão. E só deixei de tremer aqui na vossa tenda».

 

Não foi, porém, estabelecido nenhum acordo de paz. A pedido da mãe, o príncipe terá concordado em desistir dos seus intentos, mas declarando que não mais desejaria falar com o pai, nem encontrar-se com ele, pelo que retirava para Santarém.

 

Dom Dinis, no entanto, dirigiu-se àquela cidade, em Fevereiro de 1324, sofrendo grande humilhação, quando as portas se lhe mantiveram fechadas. Houve duros combates, mas conseguiu-se um acordo entre o rei e o príncipe a 26 de Fevereiro. Dom Dinis comprometeu-se a aumentar as rendas do filho e a retirar o cargo de mordomo-mor ao bastardo Afonso Sanches.

 

Dom Dinis morreria a 7 de Janeiro de 1325, dia em que seu filho Afonso foi aclamado rei de Portugal, o quarto desse nome.

 

Dom Dinis Papel (1).JPG

 

O meu romance sobre Dom Dinis está à venda sob a forma de ebook, por exemplo, na LeYa Online, na Wook, na Kobo e na Amazon (pagamento em euros); Amazon (pagamento em dólares).

 

No Brasil, está disponível na Livraria Saraiva e na Livraria Cultura.

Para adquirir a versão em papel, contacte-me através do email andancas@t-online.de.

 

 

publicado por Cristina Torrão às 11:23

18
Nov 16

 

- Que se passa?

Isabel respondeu num sussurro:

- Tive um sonho…

- Um pesadelo?

- Não sei… Uma mensagem… Ou uma premonição…

Mais uma? Dinis fez esforço por vencer o enfado, pois haveria uma razão forte que a trouxera ali, numa noite tão fria. Acabou por dizer:

- Sentai-vos e contai-me o que vos atormenta!

Isabel assim fez. Depois de pousar a vela sobre a mesinha ao lado da cama, iniciou o seu relato:

- Há cerca de uma semana, andando para os lados da Azambuja, deparei com um eremita à beira da estrada. Parecia muito perturbado e eu desmontei da minha mula e perguntei-lhe se havia mister do meu auxílio. Ele não respondeu, limitou-se a fixar-me numa tristeza infinita. Já tratei de muitos enfermos e assisti a muitas aflições, mas nunca vira olhos tão tristes. Insisti na minha pergunta. Depois de me fixar durante mais alguns momentos, ele abanou a cabeça e afastou-se de mim sem uma palavra.

Isabel baixou a cabeça e prosseguiu:

- Não mais olvidei aquele olhar. Passado uns dias, tornei ao local, a fim de o procurar. Mas não o encontrei. Perguntei por ele nas aldeias da região, descrevendo-o o melhor que podia. Ninguém parecia conhecê-lo. Indicaram-me alguns eremitas que por ali viviam e fui ter com eles. Mas nenhum era o que eu havia visto. O homem parecia ter-se esfumado, ou sido engolido pela terra… Tentei olvidá-lo. Mas hoje…

Começou a tremer mais violentamente:

- Sonhei com ele…

- Ora, ficastes impressionada com a sua figura…

- No sonho, ele falou comigo. E disse-me… - Olhou-o, muito trágica: - Que Constança havia morrido!

 

A 18 de Novembro de 1313 morreu a rainha Dona Constança de Castela, antiga infanta portuguesa, filha de Dom Dinis e Dona Isabel, com apenas 23 anos.

 

Constança 1.jpg

Para mais informações sobre Dona Constança ver o texto publicado a propósito do seu nascimento.

 

Nota: não encontrei nenhuma representação de Dona Constança. Deparei, nas minhas pesquisas, com esta imagem de Sansa Stark, uma personagem d'As Crónicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin. Decidi usá-la porque se aproxima muito da Constança que descrevo no meu romance.

 

Dom Dinis Papel (1).JPG

 

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publicado por Cristina Torrão às 11:39

15
Out 16

DinisQuadro.jpg

 

História Universal da Literatura Portuguesa

 

Em Outubro de 1323 (não se sabe em que dias) reuniram-se Cortes em Lisboa, a pedido do infante Dom Afonso, o herdeiro de Dom Dinis. Nstas Cortes reacendeu-se a guerra civil, que já se dera por terminada, uma guerra que tinha a sua origem nos desentendimentos entre o rei e o seu herdeiro.

 

O infante Dom Afonso exigia, entre outras coisas, que fosse retirado a seu meio-irmão Afonso Sanches o cargo de mordomo-mor, assim como as terras e dinheiros que o pai de ambos lhe havia doado. As suas pretensões foram, porém, desleixadas, enquanto se tratou de outros assuntos, o que acabou com a paz frágil que fora negociada entre pai e filho em Leiria, no ano anterior. A seguir ao cerco a Coimbra, essa paz tinha sido possível através da mediação da rainha Dona Isabel e do conde Dom Pedro de Barcelos.

 

Deixo-vos com um excerto do meu romance relativo às Cortes de Lisboa, quando o príncipe herdeiro viu os seus desejos ignorados pelos pares do reino, sem que seu pai interviesse a seu favor:

 

Ninguém abriu a boca. Mas Dinis arrependeu-se daquele procedimento em relação ao príncipe. Apesar de Afonso se manter digno, a humilhação era enorme, principalmente perante a notória satisfação dos meios-irmãos. Naquele instante, o rei apercebeu-se de que havia exagerado na sua proteção e no seu favorecimento dos bastardos.

Não podia, porém, voltar atrás, dando o dito por não dito e, por isso, nada fez para impedir que o seu herdeiro voltasse as costas àquela assembleia.

No fim daquele dia, o rei foi informado que o príncipe deixara a cidade e, passado duas semanas, soube que juntava os seus partidários em Santarém, planeando marchar sobre Lisboa, a fim de se apoderar do trono à força!

Era a rutura total. Embora Isabel não o dissesse, Dinis sabia que ela o considerava responsável pela situação. Ele próprio assim se sentia. A rainha recolheu-se novamente em jejuns e penitências, recusando falar com o consorte que, não obstante o arrependimento, não podia deixar de defender o seu trono. Passou o mês de Novembro a organizar um exército, formado principalmente pelos combatentes do concelho de Lisboa.

A questão decidir-se-ia numa batalha em campo aberto, onde não existiria lugar para piedades nem perdões. As tropas digladiar-se-iam até haver um vencedor.

Os exércitos aquartelaram-se na zona do campo de Alvalade.

 

 

 

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publicado por Cristina Torrão às 11:02

28
Set 16

 

 

 

Os desentendimentos entre Dinis e Dona Isabel, baseados nos conflitos que opunham o rei ao seu herdeiro, culminaram com o desterro da Rainha Santa em Alenquer, acusada pelo marido de defender o filho contra ele próprio.

 

- Chega! - bradou Dinis com quanta força tinha. E, depois de recuperar o ar, acrescentou: - Não tornarei a consentir na vossa intromissão. Ordeno a vossa prisão numa das vossas vilas, privada de todas as vossas rendas!

Isabel olhava-o indignada, mas composta:

- Prescindis então do meu auxílio?

- Auxílio?! Até agora, apenas contribuístes para o agravar da contenda, dando cobro a vosso filho, que comete traição ao virar-se contra o seu senhor e pai. Mas não vos aflijais, não mandarei atirar-vos para um calabouço. Escolhei uma das vossas vilas e vivereis na vossa residência habitual, na companhia das vossas damas, e podereis deslocar-vos dentro do concelho. Mas não mais que isso! Encarregarei guardas de vos vigiar. - Fechou o punho: - Ai de vós se vos atreverdes a sair de lá!

Isabel encarou-o desafiadora:

- Pensais que me faria grande mossa, se me atirásseis para um calabouço? Mesmo lá eu estaria na companhia de Deus e de São Francisco.

- Não me provoqueis…

- Faríeis melhor se olhásseis por vossa saúde! Não estais com bom aspeto, meu rei e senhor. Pálido, apesar da corpulência, os olhos raiados de sangue, o suor sobre a testa… Tende cautela convosco!

- Desaparecei da minha vista! - bradou Dinis, ignorando as tonturas e o bater desordenado do seu coração. - Não mais vos quero ver! Poupai-me à vossa presença, enquanto for vivo!

Isabel deu meia-volta e saiu. Estafado, Dinis deixou-se cair para cima de uma cadeira.

 

 

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publicado por Cristina Torrão às 10:53

22
Set 16

Dinis e Isabel - Leiria.jpg

 

 

 

Estátuas de Dom Dinis e de Dona Isabel em Leiria

 

 

 

 

Na última década de vida de Dom Dinis, os seus desentendimentos com Dona Isabel eram sobretudo baseados nos conflitos entre o rei e o seu herdeiro que desembocaram numa guerra civil. Parece ponto assente que Dona Isabel defendia o filho, pelo menos, disso foi acusada pelo marido.

 

Recostado na sua cadeira, o rei inquiriu:

- Vindes repetir aquilo que já me dissestes dezenas de vezes?

- Não propriamente. Um novo receio me atinge.

- Deveras?

- Muitos dos descontentes que se vão queixar a nosso filho podem meter-lhe ideias na cabeça…

Isabel interrompeu-se e o rei inclinou-se sobre a mesa, onde pousou os braços cruzados:

- Que tipo de ideias?

Contra o que lhe era habitual, a rainha hesitou, mas acabou por responder:

- Afonso completou vinte anos, é casado há quase dois… É bem possível que haja por aí gente que lhe lamba as botas na esperança de que ele substitua o pai o mais lesto possível, a fim de que ele satisfaça as suas reivindicações.

Dinis não sabia se havia de desatar às gargalhadas, ou de dar um murro na mesa. A seriedade com que Isabel o encarava acabou por o decidir: mostrar-lhe-ia que tal afirmação só lhe provocava escárnio. Riu-se. E, quanto mais se ria, mais vontade sentia de o fazer. Acabou por dar gargalhadas sinceras, mas a rainha não se deixou impressionar:

- Quereis fazer-me crer que considerais tais suposições absurdas? Que não considerais o perigo?

- Perigo de quê? - replicou ele, ainda entre risos. - Que o meu filho participe numa conspiração, com o fito de me mandar desta para melhor? Sim, porque se essa gente está à espera que eu morra em breve, bem desiludida ficará! - Endireitou-se, de peito feito: - Sinto-me mais saudável do que nunca!

- Eu sei.

- Sim, claro - replicou ele irónico. - Como pude eu pensar que tal pormenor vos escapasse?

- Não considerais a hipótese da deposição?

- Que dizeis?!

Dinis estava agora furioso, Isabel acrescentou:

- Quando existe consenso suficiente à volta do príncipe herdeiro…

- Credes mesmo que Afonso teria poder suficiente para me pôr em tais dificuldades?

No silêncio que se seguiu, Dinis ouvia o eco das próprias palavras, ditas num tom alterado, mais agudo do que o costume. Na verdade, o rei fora novamente atingido pelo receio repentino que lhe causava a lembrança do avô, isolado em Sevilha, deposto pelos nobres do seu reino, que se haviam juntado à volta do filho Sancho. À altura, Alfonso X não era muito mais velho do que ele, que acabara de completar os cinquenta anos.

 

 

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publicado por Cristina Torrão às 10:40

16
Set 16

 

 

 

O papa Clemente V enviou a Dom Dinis a bula Callidi serpentis vigil, recomendando-lhe a prisão definitiva dos Templários. Alguns eclesiásticos portugueses, como os Cónegos Regrantes de Santa Cruz e o bispo da Guarda, insistiram em que se cumprisse a bula papal. No fundo, pretendiam apoderar-se dos bens que haviam pertencido aos Templários.

 

A esse propósito, um excerto do meu romance, em que o bispo da Guarda Dom Vasco Martins de Alvelos expressa a sua indignação a Dom Dinis:

 

- Ignorais uma bula papal? E olvidais que Jacques de Molay confessou os pecados mais terríveis? Heresia, usura, sodomia! Se os franceses se davam a essas práticas repugnantes, os hispânicos não serão muito diferentes…

- Credes realmente que os freires do Templo fomentavam tais costumes? - contrapôs Dinis. - Sob tortura, qualquer um é levado a confessar principalmente o que não fez. Além disso, o Mestre francês desmentiu a sua confissão dois meses mais tarde.

- O que prova a sua falta de carácter!

- Ou constatar o não cumprimento de certas promessas?

O bispo olhou o seu monarca desconfiado:

- Que quereis dizer?

- Frei Vasco Fernandes é de opinião que Jacques de Molay terá confessado os crimes, acima de tudo, perante a promessa de que os restantes irmãos seriam poupados aos suplícios. Mais tarde, ao verificar que tal não passava de uma mentira, desmentiu a sua confissão.

- Ora, Alteza, é claro que eles se protegem uns aos outros. A opinião de Frei Vasco Fernandes, neste caso, é mais que suspeita.

Dinis olhou o prelado de soslaio, convencido de que ele cobiçava o património dos freires. Retorquiu:

- Tenho Frei Vasco Fernandes em grande estima e confio no seu juízo. Como aliás em todos os membros portugueses da Ordem. Bem sabeis como eles sempre lutaram com bravura contra a ameaça sarracena e como a sua presença é preciosa em muitos pontos da fronteira, garantindo a defesa e o povoamento.

Depois de um momento de vacilação, o bispo insistiu:

- As bulas papais são para se cumprirem!

- Pois eu estou certo que na Hispânia não se ateará uma fogueira que seja contra os Templários. Nem tão-pouco se procederá à alienação dos seus bens.

 

 

Dom Dinis Série (1).JPG

 

 

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publicado por Cristina Torrão às 10:26

09
Set 16

 

 

 

Continuando a tese de que Dom Dinis teria tido uma relação difícil com Dona Isabel, um excerto do meu romance em que o rei se revela muito amargurado:

 

Naquele momento, Dinis odiou-a por ela o submeter ao que ele considerava tirania. Isabel era uma tirana, que o sujeitava às suas vontades e aos seus caprichos! E a Dinis pouco importava que tais vontades e caprichos adviessem da sua devoção e da sua espiritualidade. Recusando-se a cumprir os seus deveres primordiais, a chamada rainha santa, a quem ninguém se atrevia a pôr defeitos e cujas virtudes se exaltavam, cometia afinal uma falta imperdoável!

Porque lhe destinara Deus tal consorte? Por mais pecados que ele cometesse e por mais defeitos que possuísse, achava o castigo descomunal! Ele, que se impunha perante o reino, falhava com a própria consorte!

Isabel nunca lhe obedecera, nem nunca se lhe submetera, mesmo quando lhe dera a impressão de o fazer. Aquela rainha não acatava ordens de ninguém que pertencesse a este mundo!

 

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publicado por Cristina Torrão às 10:30

06
Set 16

Cover neu3 Dom Dinis 100.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em Portugal viviam-se, à altura, tempos agitados, com Sancho II a não conseguir evitar o caos provocado por contestações da nobreza e do clero. A situação atingira tal ponto, que altos dignitários do clero português se haviam apresentado em França ao pai de Dinis, vendo-o como única solução para restabelecer a ordem. Lograram obter o apoio do papa Inocêncio IV, que, numa bula, declarou Sancho II rex inutilis. Estava traçado o caminho que haveria de levar Afonso III ao trono, depois de uma guerra civil que culminou com a morte do irmão no exílio, em Toledo.

 

A 6 de Setembro de 1245, uma delegação portuguesa jurou, em Paris, obediência ao conde de Bolonha, futuro rei Dom Afonso III, pai de Dom Dinis.

 

Na verdade, o pai de Dom Dinis não estava destinado a ser rei, pois era mais novo do que o irmão Sancho. Porém, durante o reinado de Dom Sancho II, instalou-se a confusão no reino e a delegação que se dirigiu a Paris exigia justiça e a imposição da ordem, apelando ao irmão do monarca. A 24 de Julho, o papa Inocêncio IV emitiu a bula de deposição de Sancho II, Grandi non immerito, em que o soberano foi considerado rex inutilis.

 

O futuro Dom Afonso III jurou respeitar as liberdades da igreja, mas, na verdade, envolveu-se numa série de conflitos com o clero, foi inclusive acusado de adultério e incesto ao casar-se com Dona Beatriz de Castela. A situação culminou com o interdito em Portugal, lançado por Alexandre IV em Maio de 1255.

 

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publicado por Cristina Torrão às 10:46

01
Set 16

Manesse P 3.jpg

 

 

 

 

 

Imagem Codex Manesse

 

 

 

 

 

Sou de opinião que a relação entre Dom Dinis e Dona Isabel não teria sido fácil, situação aliás latente na narração do milagre das rosas. Embora essa lenda não seja exclusiva do par real português (o milagre das rosas atribuído a Santa Elisabete da Turíngia é semelhante), é evidente a não-aceitação de Dom Dinis de tanto fervor caritativo da sua rainha. No meu romance, eu alargo essa rejeição ao fervor espiritual de Dona Isabel.

É também curioso constatar que, em quarenta e quatro anos de casamento, o par real teve apenas dois filhos, nascidos entre 1290 e 1291. Dom Dinis só morreria em 1325, trinta e quatro anos depois de nascer o seu último filho com Dona Isabel.

 

Em meados do mês, quando os calores abafados deram lugar a trovoadas monumentais, chegaram finalmente notícias. De Aragão! Com apenas vinte e seis anos, Afonso III morrera de repente, nas vésperas do seu casamento com a filha de Eduardo I de Inglaterra! À falta de um herdeiro, o trono fora ocupado por seu irmão Jaime.

Isabel isolou-se totalmente, ficando inalcançável. Acordando no meio das noites de trovejar violento, sozinho e triste, o rei deu consigo a desejar ter Aldonça a seu lado. E continuava a perguntar-se que tipo de sentimentos o ligava à consorte. Durante aqueles quase três anos de felicidade em comum, pensara, muitas vezes, que Isabel era a mulher da sua vida. Parecia não se encher dela, como normalmente acontecia com as barregãs. Por outro lado, toda aquela espiritualidade, assim como as qualidades de curandeira e vidente, assustavam-no. Não deixava de ser uma ironia na vida dele: a mulher que ele mais desejava, afigurava-se-lhe inalcançável. Parecia-lhe estar longe, apesar de viver a seu lado.

Algumas semanas mais tarde, Isabel procurou-o. Parecia flutuar, em vez de andar. A palidez e a magreza davam um tom transparente à pele, realçando o negrume dos olhos. Na sua amargura, Dinis não conseguiu evitar uma tirada áspera:

- Se assim continuais, cedo fareis companhia a vosso irmão!

Logo se arrependeu daquela rudeza, mas Isabel manteve o semblante sereno, imune, como sempre ficava depois de meditação e jejum intensivos. E retorquiu muito calma:

- Não vos preocupeis! Ainda me estão reservados vários anos de vida.

Dinis absteve-se de perguntar quem lhe assegurara tal.

 

Cover neu3 Dom Dinis 100.jpg

 

 

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publicado por Cristina Torrão às 11:05

29
Ago 16

Cantiga de Amigo 2.jpg

 

 

 

 

 

 

 

Fonte da Imagem

 

 

 

 

Dom Dinis compôs Cantigas de Amor e de Amigo apenas para as suas amantes, ou também o fez para a sua rainha Dona Isabel? No meu romance, sim, embora a relação entre os dois tenha sido difícil, cheia de incógnitas:

 

Anunciou entoar uma cantiga que compusera para ela. Isabel encarou-o resplandecente.

Dinis não possuía grande voz, mas, devido ao seu bom ouvido musical, não desafinava. Ao som dos alaúdes, cantou sobre a senhor que lhe pedira que nunca lhe dissesse o quanto ele a amava, nem quanto por isso sofria (numa alusão à espera que o angustiava e desesperava). E questionava-a: mas, se não vos disser a vós, senhor, a quem poderei eu contar tal? Se não vos disser o que por vós sofro, por quem ireis sabê-lo?

 

                        Vós mi defendestes, senhor,

                        que nunca vos dissesse rem

                        de quanto mal mi por vós vem;

                        mais fazede-me sabedor,

                        por Deus, senhor, a quem direi

                        quam muito mal levei

                        por vós, se nom a vós, senhor?

 

                        Ou a quem direi o meu mal,

                        se o eu a vós nom disser,

                        pois calar-me nom m’é mester

                        e dizer-vo-lo nom m’ er val?

                        E pois tanto mal sofr’ assi

                        se convosco nom falar i

                        por quem saberedes meu mal?

 

Quando a música cessou, em vez de aplaudir ou elogiar, Isabel ficou fixa nele. Os olhos negros brilhavam intensamente. Gerou-se silêncio, só se ouvia o crepitar do lume… Até que lobos uivaram na serra.

 

Dom Dinis Papel (1).JPG

 

 

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Nota: Todas as Cantigas de Amor, de Amigo e de Escárnio transcritas no meu romance são originais de Dom Dinis, embora seja fictício o contexto em que são inseridas.

 

publicado por Cristina Torrão às 10:55

Andanças Medievais
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As minhas informações sobre Dom Dinis são baseadas na biografia escrita pelo Professor José Augusto de Sotto Mayor Pizarro (Temas e Debates 2008)
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