Durante este ano, assinalarei aqui acontecimentos importantes do reinado de Dom Dinis, à medida que forem acontecendo os respetivos aniversários, assim como transcreverei excertos do meu romance sobre o Rei Lavrador.

20
Jul 16

Excerto do meu romance, respeitante ao terceiro manifesto apresentado por Dom Dinis contra o seu filho e herdeiro, futuro Dom Afonso IV:

 

Dinis não descortinava maneira de prever o futuro. Nada mais lhe restava do que dar o contributo que achava adequado para o findar das calamidades: apresentou, a 17 de Dezembro, apenas uma semana depois do sismo, o seu terceiro manifesto, mais violento. Dirigia-o ao concelho de Lisboa, de quem pretendia, entre outros, apoio militar.

Mais uma vez, relatava os desmandos e violências perpetrados pelos apoiantes do príncipe, muitos deles degredados e malfeitores. E ia mais longe: escarnecia da intromissão da rainha e do apoio que o infante havia solicitado a Aragão, pois os que acompanhavam o filho nada tinham que devessem à rainha e o próprio príncipe nada tinha que viesse de Aragão, mas sim apenas do rei, seu pai. Concluía, desnaturando o filho: o Infante, pelas obras em que andou e anda e pelos seus cometimentos feitos até aqui, e que agora faz atacando o Rei, desnaturou-se do Rei e da sua terra e dos seus naturais.

 

O meu romance sobre Dom Dinis está à venda sob a forma de ebook na LeYa Online, na Wook e na Kobo.

 

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Para adquirir a versão em papel, contacte-me através do email andancas@t-online.de.

publicado por Cristina Torrão às 11:14

08
Jul 16

Aqui, uma cena do meu romance, respeitante a um episódio da guerra que opôs Dom Dinis ao seu herdeiro, o futuro Dom Afonso IV:

 

O monarca deu mais algumas vezes ordem de disparo, a fim de matar o maior número possível de adversários, antes de investir contra eles.

Nisto, o alcaide Fernão Rodrigues Bugalho agitou-se a seu lado:

- Pelas cinco chagas… Mas que vem a ser aquilo?

Dinis esforçou os olhos no ar límpido da manhã. A primeira coisa que viu foi a cruz, segurada por um cavaleiro. Que não vinha sozinho! Duas figuras a cavalo deslocavam-se pelo campo, debaixo do voo das setas!

- Com mil diabos - exclamou o alferes-mor João Afonso. - Estarão as criaturas cansadas de viver?

O rei esforçou mais os olhos. A figura da frente vinha toda vestida de branco, uma capa esvoaçava na brisa da manhã, iluminada pelo sol de Dezembro. Parecia um anjo…

Isabel!

- Cessai os disparos - berrou Dinis com quanta força tinha. - É a rainha! Cessai os disparos!

 

 

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publicado por Cristina Torrão às 10:18

20
Jun 16

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Pormenor da estátua de Dom Dinis, em Coimbra

 

 

 

 

A 20 de Junho de 1322 Dom Dinis foi acometido de doença grave, dois anos e meio antes da sua morte. «Um ligeiro ataque vascular-cerebral ou um pequeno ataque cardíaco?», pergunta-se o autor da biografia de Dom Dinis (Temas e Debates, 2008), José Augusto Pizarro.

 

O rei Lavrador tinha, nesta altura, sessenta e um anos e nunca tinha estado verdadeiramente doente. Encontrava-se, porém, numa fase muito desgastante da sua vida, que inclusive lhe terá acelerado a morte: a guerra civil contra o seu próprio filho e herdeiro. Esta doença verificou-se aliás depois do cerco a Coimbra, que implicou duros combates. Através da mediação da rainha Dona Isabel e do conde de Barcelos Pedro Afonso (filho ilegítimo de Dom Dinis), o rei assinou as pazes com o infante, mas, no seu regresso a Lisboa, sentiu-se mal.

 

O estado de Dom Dinis melhorou no início do ano seguinte, mas as pazes com o filho foram de pouca dura. O acordo seria quebrado em Outubro de 1323, depois das Cortes de Lisboa. A guerra entraria na sua última fase, com a Batalha de Alvalade, mas dedicar-me-ei ao assunto na altura própria. Para já, um excerto do meu romance, quando já não havia entendimento possível entre pai e filho:

 

De nada adiantava mandar emissários, depois da humilhação nas Cortes de Lisboa, Afonso tudo faria para se apossar do trono! A batalha era inevitável.

Dinis sabia que fora longe demais. Mas que força o impedia de se entender com o seu próprio herdeiro? Teria inconscientemente guiado os acontecimentos de maneira a que Afonso Sanches lhe pudesse suceder? A verdade é que ele próprio se via incapaz de responder a esta pergunta. Lembrou-se do neto Pedro, que tanto o encantara em Frielas, mas também Afonso Sanches tinha um filho que já fizera nove anos e que igualmente o cativava…

Naquela noite, véspera da batalha, Dinis mortificava-se. Estava a ir contra a vontade de Deus, chefiando um combate contra o seu único filho legítimo? O rei não conseguia adormecer, novamente atacado por tonturas, dores de cabeça e suores. Tornaria a adoecer? Finar-se-ia ainda antes de se dar o combate?

Deus que decidisse! Nada mais lhe restava que não fosse confiar na força divina. Desejou um milagre. Sabia que Isabel rezava, recolhida no seu paço, depois de semanas de penitências rigorosas. Conseguiria ela provocar um milagre?

 

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publicado por Cristina Torrão às 11:49

07
Mar 16

A 7 de Março de 1322, Dom Dinis cercou a cidade de Coimbra, que havia sido conquistada por seu filho a 31 de Dezembro de 1321. Também Dona Isabel para lá se dirigiu, deixando o seu desterro em Alenquer, ordenado pelo próprio Dom Dinis, que a acusava de pactuar com o filho.O reino português encontrava-se em plena guerra civil, entre Dom Dinis e o seu herdeiro, futuro Dom Afonso IV, uma guerra que tanto desgastou o rei, que bem pode ter acelerado a sua morte.

 

Como se vê, havia um grande drama familiar por trás da guerra que dilacerou o reino português no início do século XIV, o que não deixa de ser estranho, tendo em conta os protagonistas: um rei culto, justo e amigo do povo; uma rainha exemplar, que foi canonizada; o filho dos dois!

 

DinisCoimbra.jpg

 

 

 

 

 

Pormenor da estátua de Dom Dinis em Coimbra

 

 

 

 

Vendo a derrota à frente, Dinis considerou ser Isabel a sua última esperança. Pediu para conferenciar com ela e pediu-lhe desesperado:

- Suplico-vos que guiseis estabelecer a paz sem que haja vencedor nem derrotado!

Isabel olhou-o amargurada:

- Pedis-me o impossível!

Dinis aproximou-se dela e, pegando-lhe nas mãos, insistiu:

- Intercedei junto de Deus! Diz-se que já fizestes milagres… Não o podereis tornar a fazer?

A rainha engoliu em seco e replicou:

- A graça de fazer milagres só é concedida quando Deus assim o entende, não depende da minha vontade. Sou um mero instrumento nas Suas mãos.

- Quereis dizer que nada podeis fazer por mim?

O seu desespero mortificava-a. O rei raramente lhe vira o rosto tão dilacerado pelo sofrimento e, num impulso, beijou-lhe as mãos. Ela fechou os olhos por um momento e quando os abriu, disse:

- Darei o meu melhor! Mas haverei mister de auxílio, de um mediador, a quem Afonso dê realmente ouvidos. E não me ocorre mais ninguém tão adequado como o conde de Barcelos!

Dinis estremeceu perante a menção daquele seu bastardo que ele destituíra do cargo de alferes-mor e da maior parte das suas rendas, obrigando-o ao exílio. Até àquele momento, considerara-o um traidor. Agora, deu consigo a perguntar:

- Pensais que ele consentirá em falar comigo?

- Com certeza. Pedro Afonso é uma alma gentil, que não guarda rancor… E que vos ama e respeita como ninguém!

 

Isabel - Batalha Alvalade.jpg

 

 

 

 

Imagem daqui

 

 

 

Graças às intervenções de Dona Isabel e do conde Pedro de Barcelos, o rei retirou para Leiria e o infante para Pombal. Em Maio, encontraram-se em Leiria e assinaram um acordo de paz. Dom Dinis, porém, que já passara dos sessenta, foi acometido de doença grave à sua chegada a Lisboa.

 

Ao chegar a Lisboa, confiante que, podendo enfim repousar, o seu estado melhorasse, Dinis constatou o contrário: acordou uma madrugada muito prostrado, confuso da cabeça e sem conseguir articular palavras! Chamaram-se os físicos, que o sangraram, e também a rainha preparou as suas poções, desfazendo-se em mil cuidados e desdobrando-se em rezas.

Passado uns dias, Dinis melhorou um pouco. Embora a fraqueza ainda o impedisse de deixar o leito, viu-se capaz de falar e aproveitou para suplicar à rainha que não o deixasse, sentindo-se muito dependente dela. E, a 20 de Junho daquele ano de 1322, decidiu fazer o seu testamento.

(…)

Nos piores momentos da sua enfermidade, os cuidados e a dedicação de Isabel provaram ser imprescindíveis. O rosto dela iluminava o dia mais triste, a sua voz confortava, a sua serenidade dava confiança e coragem e o toque das suas mãos era bálsamo para almas aflitas. Isabel era a esperança transformada gente, como se Deus houvesse decidido dar uma forma humana a esse sentimento. E, apesar de haver amado outras mulheres e de, muitas vezes, haver odiado a rainha, Dinis não desejaria ter qualquer outra perto de si naquelas horas difíceis.

 

Dom Dinis melhorou. Mas a paz que assinou com o filho foi quebrada cerca de ano e meio mais tarde, depois das Cortes de Lisboa, em Outubro de 1323. A guerra civil entraria na sua última fase.

 

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Dom Afonso IV

 

 

 

 

Os excertos são do meu romance sobre Dom Dinis que pode ser adquirido na LeyaOnline por 6,99 € (clique). Também na Wook.

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publicado por Cristina Torrão às 11:14

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As minhas informações sobre Dom Dinis são baseadas na biografia escrita pelo Professor José Augusto de Sotto Mayor Pizarro (Temas e Debates 2008)
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