Durante este ano, assinalarei aqui acontecimentos importantes do reinado de Dom Dinis, à medida que forem acontecendo os respetivos aniversários, assim como transcreverei excertos do meu romance sobre o Rei Lavrador.

08
Jul 16

Aqui, uma cena do meu romance, respeitante a um episódio da guerra que opôs Dom Dinis ao seu herdeiro, o futuro Dom Afonso IV:

 

O monarca deu mais algumas vezes ordem de disparo, a fim de matar o maior número possível de adversários, antes de investir contra eles.

Nisto, o alcaide Fernão Rodrigues Bugalho agitou-se a seu lado:

- Pelas cinco chagas… Mas que vem a ser aquilo?

Dinis esforçou os olhos no ar límpido da manhã. A primeira coisa que viu foi a cruz, segurada por um cavaleiro. Que não vinha sozinho! Duas figuras a cavalo deslocavam-se pelo campo, debaixo do voo das setas!

- Com mil diabos - exclamou o alferes-mor João Afonso. - Estarão as criaturas cansadas de viver?

O rei esforçou mais os olhos. A figura da frente vinha toda vestida de branco, uma capa esvoaçava na brisa da manhã, iluminada pelo sol de Dezembro. Parecia um anjo…

Isabel!

- Cessai os disparos - berrou Dinis com quanta força tinha. - É a rainha! Cessai os disparos!

 

 

O meu romance sobre Dom Dinis está à venda sob a forma de ebook na LeYa Online, na Wook e na Kobo.

 

Para adquirir a versão em papel, contacte-me através do email andancas@t-online.de.

 

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publicado por Cristina Torrão às 10:18

04
Jul 16

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Excerto do meu romance, respeitante ao primeiro manifesto que Dom Dinis apresentou contra o filho:

 

A 1 de Julho daquele ano de 1320, Dinis mandou ler o manifesto nos paços reais da alcáçova de Santarém, na presença dos seus nobres conselheiros e dos Mestres das Ordens militares.

O rei começava por referir a ingratidão do filho, não obstante as mercês com que o cumulara e à sua esposa. Invocava os conflitos que haviam existido entre Afonso Sanches e o 2º conde de Barcelos Martim Gil de Riba de Vizela, referindo que havia tentado a concórdia entre os dois, por amor do infante meu filho, com quem ele (Martim Gil) andava, não evitando, porém, que o conde se tivesse feito vassalo do rei de Castela. Em vez de condenar tal atitude, tendo em conta a desonra que representava para o próprio monarca seu pai, o príncipe manifestara amizade e solidariedade ao desertor, uma afronta que ele, o rei, não podia calar, apesar de já se haverem passado oito anos.

Dinis referia-se ainda às discórdias que o haviam oposto a Frei Estêvão Miguéis e a seu sobrinho Dom Fernando Ramires, que haviam intrigado junto do príncipe, incitando-o a desobedecer ao pai. Acusava o bispo de Lisboa de haver usado o dinheiro que lhe dera para custear as negociações na Santa Sé, a fim de comprar a sua nomeação e a do sobrinho para os bispados de Lisboa e do Porto.

O monarca apresentou ainda a prova documental do comendador de Magazela, onde se negava liminarmente os atos de acusação sobre o envenenamento, e confessava haver suportado e encoberto, até àquele ponto, todas as ofensas que recebera do filho, na esperança de que ele se corrigisse. A sua paciência e a sua tolerância haviam-se, porém, esgotado porque vejo que seu mal é já tanto e cada dia vai pior.

Dinis finalizava dizendo que jamais provocara ou quisera provocar qualquer dano ao herdeiro do trono, solicitando, por exemplo, a legitimação de Afonso Sanches. E já pedira a João XXII a prova documental. Na sua opinião, o único motivo que movia o príncipe era a inveja que ele tinha daquele seu irmão, por Afonso Sanches sempre ter sido obediente ao pai, estando ao seu serviço e fazendo a sua vontade.

 

 

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publicado por Cristina Torrão às 10:55

01
Jul 16

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Imagem daqui

 

 

 

 

A 1 de Julho de 1320, Dom Dinis apresentou o seu primeiro manifesto contra a revolta do filho, o futuro Dom Afonso IV. Durante a guerra civil, que se verificou entre o Rei Lavrador e o seu herdeiro, Dom Dinis apresentou três manifestos.

 

Este primeiro manifesto foi lido nos paços reais da alcáçova de Santarém e incluía várias queixas que o rei tinha contra o filho, acusando-o de ingratidão. Porém, o mais importante foi a apresentação de provas documentais, desmantelando duas acusações graves que o infante fizera: de que seu meio-irmão Afonso Sanches o tinha mandado envenenar e de que o pai preparava o seu afastamento do trono, para o que já tinha pedido ao papa a legitimação de seu filho ilegítimo, o mesmo Afonso Sanches.

 

Alguns momentos marcantes da guerra civil de 1320/25:

 

- Em Março de 1321, partidários do príncipe assassinaram Dom Geraldo bispo de Évora, junto da Igreja de Santa Maria de Estremoz. Dom Geraldo estava, desde 1317, autorizado a excomungar os adversários do rei.

 

- Em Abri de 1321, o príncipe Dom Afonso assumiu o controlo de Leiria e a 15 de Maio, Dom Dinis apresentou, em Lisboa, o segundo manifesto contra o filho e seus partidários.

 

- No Verão de 1321 (altura do desterro de Dona Isabel em Alenquer, por Dom Dinis a acusar de pactuar com o filho) o príncipe Dom Afonso tentou conquistar Santarém e Tomar, sem o conseguir (a alcáçova de Santarém é recuperada por Dom Dinis e o Mestre da Ordem de Cristo fechou a fortaleza de Tomar ao infante).

 

- Em Setembro de 1321, Jaime II de Aragão, cunhado de Dom Dinis, envia Frei Sancho a Portugal, a fim de reconciliar o pai com o filho, mas o prelado nada pôde fazer.

 

- A 9 de Dezembro de 1321, houve um grande terramoto em Lisboa, interpretado como castigo de Deus pelos desentendimentos entre pai e filho.

 

- A 17 de Dezembro de 1321, Dom Dinis apresentou o terceiro manifesto, em que desnaturava o filho e considerava traidores quantos o seguissem.

 

- A 31 de Dezembro de 1321, o príncipe Dom Afonso apoderou-se de Coimbra, cidade que Dom Dinis cercou a 7 de Março de 1322.

 

- Em Janeiro de 1322, Dom Dinis recuperou Leiria e castigou duramente os traidores, que tinham fugido para o mosteiro de Alcobaça. Nesta altura, o infante Dom Afonso ocupou os castelos de Montemor-o-Velho, Feira e Vila Nova de Gaia e a cidade do Porto, onde se lhe juntou o conde Pedro de Barcelos (seu meio-irmão).

 

- Em Maio de 1322, há um acordo de paz em Leiria. Dom Dinis foi acometido de doença grave à sua chegada a Lisboa e fez segundo testamento. O seu estado melhorou no início de 1323, mas a paz foi quebrada depois das Cortes de Lisboa em Outubro deste ano, com Dom Afonso decidido a apoderar-se à força do trono, conquistando Lisboa. Por intervenção de Dona Isabel, não chegou a travar-se a batalha no campo de Alvalade (ou, segundo José Mattoso, no lugar chamado Albogas, perto de Loures).

 

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 Dona Isabel na Batalha de Alvalade

 

De nada adiantava mandar emissários, depois da humilhação nas Cortes de Lisboa, Afonso tudo faria para se apossar do trono! A batalha era inevitável.

Dinis sabia que fora longe demais. Mas que força o impedia de se entender com o seu próprio herdeiro? Teria inconscientemente guiado os acontecimentos de maneira a que Afonso Sanches lhe pudesse suceder? A verdade é que ele próprio se via incapaz de responder a esta pergunta. Lembrou-se do neto Pedro, que tanto o encantara em Frielas, mas também Afonso Sanches tinha um filho que já fizera nove anos e que igualmente o cativava…

Naquela noite, véspera da batalha, Dinis mortificava-se. Estava a ir contra a vontade de Deus, chefiando um combate contra o seu único filho legítimo? O rei não conseguia adormecer, novamente atacado por tonturas, dores de cabeça e suores. Tornaria a adoecer? Finar-se-ia ainda antes de se dar o combate?

Deus que decidisse! Nada mais lhe restava que não fosse confiar na força divina. Desejou um milagre. Sabia que Isabel rezava, recolhida no seu paço, depois de semanas de penitências rigorosas. Conseguiria ela provocar um milagre?

 

 

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publicado por Cristina Torrão às 11:25

20
Jun 16

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Pormenor da estátua de Dom Dinis, em Coimbra

 

 

 

 

A 20 de Junho de 1322 Dom Dinis foi acometido de doença grave, dois anos e meio antes da sua morte. «Um ligeiro ataque vascular-cerebral ou um pequeno ataque cardíaco?», pergunta-se o autor da biografia de Dom Dinis (Temas e Debates, 2008), José Augusto Pizarro.

 

O rei Lavrador tinha, nesta altura, sessenta e um anos e nunca tinha estado verdadeiramente doente. Encontrava-se, porém, numa fase muito desgastante da sua vida, que inclusive lhe terá acelerado a morte: a guerra civil contra o seu próprio filho e herdeiro. Esta doença verificou-se aliás depois do cerco a Coimbra, que implicou duros combates. Através da mediação da rainha Dona Isabel e do conde de Barcelos Pedro Afonso (filho ilegítimo de Dom Dinis), o rei assinou as pazes com o infante, mas, no seu regresso a Lisboa, sentiu-se mal.

 

O estado de Dom Dinis melhorou no início do ano seguinte, mas as pazes com o filho foram de pouca dura. O acordo seria quebrado em Outubro de 1323, depois das Cortes de Lisboa. A guerra entraria na sua última fase, com a Batalha de Alvalade, mas dedicar-me-ei ao assunto na altura própria. Para já, um excerto do meu romance, quando já não havia entendimento possível entre pai e filho:

 

De nada adiantava mandar emissários, depois da humilhação nas Cortes de Lisboa, Afonso tudo faria para se apossar do trono! A batalha era inevitável.

Dinis sabia que fora longe demais. Mas que força o impedia de se entender com o seu próprio herdeiro? Teria inconscientemente guiado os acontecimentos de maneira a que Afonso Sanches lhe pudesse suceder? A verdade é que ele próprio se via incapaz de responder a esta pergunta. Lembrou-se do neto Pedro, que tanto o encantara em Frielas, mas também Afonso Sanches tinha um filho que já fizera nove anos e que igualmente o cativava…

Naquela noite, véspera da batalha, Dinis mortificava-se. Estava a ir contra a vontade de Deus, chefiando um combate contra o seu único filho legítimo? O rei não conseguia adormecer, novamente atacado por tonturas, dores de cabeça e suores. Tornaria a adoecer? Finar-se-ia ainda antes de se dar o combate?

Deus que decidisse! Nada mais lhe restava que não fosse confiar na força divina. Desejou um milagre. Sabia que Isabel rezava, recolhida no seu paço, depois de semanas de penitências rigorosas. Conseguiria ela provocar um milagre?

 

Cover neu3 Dom Dinis 100.jpg

 

O meu romance sobre Dom Dinis está à venda sob a forma de ebook na LeYa Online, na Wook e na Kobo.

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publicado por Cristina Torrão às 11:49

07
Mar 16

A 7 de Março de 1322, Dom Dinis cercou a cidade de Coimbra, que havia sido conquistada por seu filho a 31 de Dezembro de 1321. Também Dona Isabel para lá se dirigiu, deixando o seu desterro em Alenquer, ordenado pelo próprio Dom Dinis, que a acusava de pactuar com o filho.O reino português encontrava-se em plena guerra civil, entre Dom Dinis e o seu herdeiro, futuro Dom Afonso IV, uma guerra que tanto desgastou o rei, que bem pode ter acelerado a sua morte.

 

Como se vê, havia um grande drama familiar por trás da guerra que dilacerou o reino português no início do século XIV, o que não deixa de ser estranho, tendo em conta os protagonistas: um rei culto, justo e amigo do povo; uma rainha exemplar, que foi canonizada; o filho dos dois!

 

DinisCoimbra.jpg

 

 

 

 

 

Pormenor da estátua de Dom Dinis em Coimbra

 

 

 

 

Vendo a derrota à frente, Dinis considerou ser Isabel a sua última esperança. Pediu para conferenciar com ela e pediu-lhe desesperado:

- Suplico-vos que guiseis estabelecer a paz sem que haja vencedor nem derrotado!

Isabel olhou-o amargurada:

- Pedis-me o impossível!

Dinis aproximou-se dela e, pegando-lhe nas mãos, insistiu:

- Intercedei junto de Deus! Diz-se que já fizestes milagres… Não o podereis tornar a fazer?

A rainha engoliu em seco e replicou:

- A graça de fazer milagres só é concedida quando Deus assim o entende, não depende da minha vontade. Sou um mero instrumento nas Suas mãos.

- Quereis dizer que nada podeis fazer por mim?

O seu desespero mortificava-a. O rei raramente lhe vira o rosto tão dilacerado pelo sofrimento e, num impulso, beijou-lhe as mãos. Ela fechou os olhos por um momento e quando os abriu, disse:

- Darei o meu melhor! Mas haverei mister de auxílio, de um mediador, a quem Afonso dê realmente ouvidos. E não me ocorre mais ninguém tão adequado como o conde de Barcelos!

Dinis estremeceu perante a menção daquele seu bastardo que ele destituíra do cargo de alferes-mor e da maior parte das suas rendas, obrigando-o ao exílio. Até àquele momento, considerara-o um traidor. Agora, deu consigo a perguntar:

- Pensais que ele consentirá em falar comigo?

- Com certeza. Pedro Afonso é uma alma gentil, que não guarda rancor… E que vos ama e respeita como ninguém!

 

Isabel - Batalha Alvalade.jpg

 

 

 

 

Imagem daqui

 

 

 

Graças às intervenções de Dona Isabel e do conde Pedro de Barcelos, o rei retirou para Leiria e o infante para Pombal. Em Maio, encontraram-se em Leiria e assinaram um acordo de paz. Dom Dinis, porém, que já passara dos sessenta, foi acometido de doença grave à sua chegada a Lisboa.

 

Ao chegar a Lisboa, confiante que, podendo enfim repousar, o seu estado melhorasse, Dinis constatou o contrário: acordou uma madrugada muito prostrado, confuso da cabeça e sem conseguir articular palavras! Chamaram-se os físicos, que o sangraram, e também a rainha preparou as suas poções, desfazendo-se em mil cuidados e desdobrando-se em rezas.

Passado uns dias, Dinis melhorou um pouco. Embora a fraqueza ainda o impedisse de deixar o leito, viu-se capaz de falar e aproveitou para suplicar à rainha que não o deixasse, sentindo-se muito dependente dela. E, a 20 de Junho daquele ano de 1322, decidiu fazer o seu testamento.

(…)

Nos piores momentos da sua enfermidade, os cuidados e a dedicação de Isabel provaram ser imprescindíveis. O rosto dela iluminava o dia mais triste, a sua voz confortava, a sua serenidade dava confiança e coragem e o toque das suas mãos era bálsamo para almas aflitas. Isabel era a esperança transformada gente, como se Deus houvesse decidido dar uma forma humana a esse sentimento. E, apesar de haver amado outras mulheres e de, muitas vezes, haver odiado a rainha, Dinis não desejaria ter qualquer outra perto de si naquelas horas difíceis.

 

Dom Dinis melhorou. Mas a paz que assinou com o filho foi quebrada cerca de ano e meio mais tarde, depois das Cortes de Lisboa, em Outubro de 1323. A guerra civil entraria na sua última fase.

 

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Dom Afonso IV

 

 

 

 

Os excertos são do meu romance sobre Dom Dinis que pode ser adquirido na LeyaOnline por 6,99 € (clique). Também na Wook.

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publicado por Cristina Torrão às 11:14

08
Fev 16

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Fonte da imagem (clique)

 

 

 

 

Faz hoje 725 anos que nasceu um dos reis mais enigmáticos da nossa História: Dom Afonso IV

 

Ficou sobretudo conhecido por ter mandado assassinar Inês de Castro, embora os verdadeiros contornos dessa conspiração permaneçam nebulosos.

 

Dom Afonso IV era filho de Dom Dinis e de Dona Isabel. Diz-se que era mau e irascível desde a infância, o que não deixa de ser curioso, sendo os seus pais um rei exemplar e uma rainha que foi canonizada. Muitas vezes me pergunto: porque não conseguiram Dom Dinis e Dona Isabel transmitir bom carácter ao filho? E porque nunca Dom Dinis se deu bem com o seu próprio herdeiro? Coisas que ficarão para sempre envolvidas na bruma dos séculos…

 

Dom Afonso IV casou com a infanta Dona Beatriz de Castela, dois anos mais nova, filha de seu tio-avô, o rei Sancho IV, e de Dona Maria de Molina. O casamento parece ter sido feliz, o que não deixa de ser estranho num homem que se julga não ter conhecido escrúpulos. Afonso IV é mesmo um caso raro entre os monarcas portugueses, pois não se lhe conhecem barregãs nem filhos ilegítimos. 

 

Terá sido dono de grande moralidade, transmitida pela mãe Dona Isabel? Isto poderia explicar a sua falta de tolerância a desvios de comportamento do seu próprio filho e herdeiro, Dom Pedro I. E também explicaria que, sendo mais ligado à mãe, se tivesse afastado do pai, que parecia preferir a companhia do bastardo Afonso Sanches.

 

A infanta Dona Beatriz de Castela, tornada rainha de Portugal por matrimónio com Afonso IV, viveu na corte portuguesa desde os quatro anos de idade. Foi criada pela sogra Dona Isabel, assim que ficou estabelecido o seu consórcio com o príncipe herdeiro, por ocasião do Tratado de Alcañices, a 12 de Setembro de 1297, onde ficaram definitivamente estabelecidas as fronteiras do reino português. 

 

Todas as informações conhecidas sobre Dom Afonso IV estão reunidas na biografia de autoria de Bernardo Vasconcelos e Sousa (Temas e Debates, 2009).

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publicado por Cristina Torrão às 10:57

06
Fev 16

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Codex Manesse

 

 

 

 

 

Faz hoje 753 anos que nasceu o infante Dom Afonso, irmão de Dom Dinis, mais novo cerca de ano e meio. Dom Afonso parece nunca ter superado a sua condição de filho segundo, pois causou problemas ao rei durante toda a vida. Por três vezes se insubordinou, obrigando Dom Dinis a usar da força, pondo cerco aos lugares onde se refugiava: Vide, Arronches e Portalegre. Por outro lado, é notável que o Rei Poeta sempre lhe tenha perdoado e o tenha protegido, mesmo em circunstâncias absurdas.

 

O infante Dom Afonso casou com Dona Violante Manuel, filha do infante Dom Manuel de Castela, recebendo senhorios no reino de Múrcia. O matrimónio, porém, não foi reconhecido pela Igreja, devido ao parentesco: Dom Manuel de Castela, sendo irmão do rei Afonso X, era tio-avô do infante português.

 

Dom Dinis, sempre protetor, legitimou-lhe os filhos, na sua qualidade de rei, sem consultar a Igreja, provocando um protesto formal de Dona Isabel, por sinal, no dia do 34º aniversário do infante (ver abaixo).

 

Dom Afonso teve um fim de vida muito amargo. O seu filho e herdeiro morreu com apenas dezassete anos, em 1302, e, apesar de ter ainda três filhas, o infante não conseguiu superar a morte daquele que era o orgulho da sua vida. Terá começado a comportar-se de maneira estranha, chegando mesmo a assassinar a esposa, caso que foi abafado por Dom Dinis, apesar de o rei de Aragão, cunhado do monarca português e igualmente parente da falecida, o instar a esclarecer a questão.

 

Dom Dinis protegeu o irmão até ao fim. Dom Afonso morreu a 2 de Novembro de 1312, com apenas quarenta e nove anos, sendo sepultado na igreja de São Domingos de Lisboa, no túmulo que o próprio mandara fazer.

 

Foi igualmente a 6 de Fevereiro (em 1297) que Dona Isabel apresentou, na alcáçova de Coimbra, protesto formal contra a legitimação dos sobrinhos, filhos do seu cunhado Dom Afonso. Apresentou como motivos o facto de o irmão do rei se ter insubordinado algumas vezes e o provável perigo que os filhos deste pudessem significar para o reinado do filho Dom Afonso IV. De qualquer maneira, é curiosa uma atitude deste tipo por parte de uma rainha caridosa, que sempre procurou consensos.

 

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Fonte da Imagem (clique)

 

 

 

 

 

Apesar de ter aceite o protesto, Dom Dinis não se escusou a redigir a carta que legitimou os filhos de seu irmão, dois dias mais tarde.

 

O filho de Dom Dinis e de Dona Isabel, o príncipe herdeiro Afonso, apresentou igualmente um protesto a esta legitimação, passados onze anos, o que teria desagradado ao pai. Aliás, Dom Dinis nunca verdadeiramente se entendeu com o seu herdeiro, futuro Dom Afonso IV.

 

 

publicado por Cristina Torrão às 12:05

12
Jan 16

 

 

Dom Dinis teve um neto com o seu nome, nascido a 12 de Janeiro de 1317.

 

«Estabeleceu-se uma acalmia no início do novo ano, ao dar-se um feliz acontecimento: Beatriz deu à luz mais um menino, a 12 de Janeiro, e o príncipe deu o nome de Dinis àquele filho. O rei disse a Isabel aquela ser a prova de que nada de grave sucederia. Afonso parecia cair em si, abstendo-se de continuar a hostilizar o pai, cumprindo enfim a tradição de dar ao seu herdeiro o nome do avô. Isabel, porém, pediu-lhe que não exagerasse na sua alegria e que não ignorasse os problemas existentes».

 

As desavenças entre o rei e o seu herdeiro Afonso, que desembocariam numa guerra civil, eram já graves, nesta altura. Dom Dinis parece ter tido muita esperança neste neto, que foi jurado como herdeiro do trono pelos concelhos do reino com apenas cinco meses (a 14 de Junho). Estaria Dom Dinis a pensar transmitir o trono diretamente ao neto, seu homónimo? 

 

«A 14 de Junho, Dinis deu mais uma vez azo à euforia que lhe provocara o nascimento do neto, ao exigir que os concelhos do reino jurassem o pequeno como herdeiro do trono. Uma atitude que, porém, caiu mal ao filho Afonso. A criança, de apenas cinco meses, não carecia de legitimidade, nem tão-pouco faltava ao reino um príncipe herdeiro adulto. Porque dava o soberano um sinal claro em relação ao neto, em vez de o fazer com o filho? Pretenderia ele passar por cima de Afonso?»

 

Porém, o pequeno infante Dinis morreu com cerca de um ano de idade. Era o segundo neto que lhe morria, depois de um outro chamado Afonso, nascido em 1315.

 

«Em Estremoz, Dinis recebeu a notícia da morte do neto que tinha o seu nome, nas vésperas do primeiro aniversário! Na sua desolação, a família real convencia-se de que Deus, por algum motivo, a castigava. Seria pelos diferendos entre os seus membros? O certo é que nem Isabel encontrava resposta para tanta calamidade e, em Fevereiro, Dinis resolveu ir em peregrinação a Santiago de Compostela.

Embora acompanhado de grande comitiva, incluindo os seus cavalos, o monarca andava muito a pé. Os prelados aconselhavam-no a assim fazer, pelo menos, metade do caminho.

(…)

O rei rezou longamente junto ao túmulo do apóstolo, pois bem tinha de lhe suplicar, novamente atacado pelo fantasma do rei velho e enfermo, abandonado por tudo e todos… E recordava que sua mãe o avisara de poder estar sujeito a destino semelhante. Desprezara o conselho, mas pedia agora ao santo que o livrasse de tal sina, permitindo-lhe ser rei até exalar o seu último suspiro, à semelhança de seu pai.

Suplicou paz para o reino… E um herdeiro para o filho! Porque já lhe levara Deus dois netos legítimos, não consentindo inclusive que o sucessor de Afonso tivesse o seu nome? Tanto se convencera de que aquele principezinho haveria de reinar um dia…

Ao pedir um herdeiro para o filho, suplicava igualmente que aquele possuísse mais bom senso do que Afonso, que se lhe assomava melancólico e rancoroso, rodeado de maus conselheiros. Que estava destinado ao reino de Portugal sob a regência de Dom Afonso IV? Por alguma razão, Dinis temia pela sua amada terra e, através do apóstolo, suplicava a Deus que lhe permitisse viver o suficiente, não só para assistir ao nascimento de um outro neto varão, como para ter oportunidade de se aperceber do carácter do pequeno. Desejava um príncipe mais alegre, mais aberto, mais dado aos prazeres e às belezas da vida».

 

Dos sete filhos do futuro Dom Afonso IV, apenas três atingiram a idade adulta: duas filhas, Maria e Leonor, e um filho que seria rei, Dom Pedro I, nascido a 8 de Abril de 1319, dois anos depois do pequeno Dinis.

 

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Dom Pedro I, neto de Dom Dinis 

 

Nota: as passagens entre aspas são excertos do meu romance D. Dinis - a quem chamaram o Lavrador, a ser reeditado em breve.

 

publicado por Cristina Torrão às 10:52

03
Jan 16

 

 

 

Constança 1.jpg

 (sobre a imagem, ver nota no final)

 

A 3 de Janeiro de 1290 nasceu a infanta Dona Constança de Portugal, a primeira filha de Dom Dinis e de Dona Isabel. O casal teve apenas mais um filho, o futuro rei Dom Afonso IV, que nasceu cerca de um ano mais tarde.

 

Apesar de nascida em berço de oiro e se ter tornado rainha, a infanta Dona Constança não terá sido muito feliz na sua curta vida, como acontecia a muitas donzelas da época medieval. Foi obrigada a separar-se dos pais com apenas sete anos, por ocasião do Tratado de Alcañices, a 12 de Setembro de 1297, pois estava prometida em casamento ao rei Fernando IV de Leão e Castela. Em casos destes, era habitual que a noiva fosse criada pelos sogros.

 

Fernando IV tinha apenas doze anos, à altura do Tratado de Alcañices, mas era rei por morte de seu pai Sancho IV. Sua mãe, Maria de Molina, exerceu a regência durante a sua menoridade.

 

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Fernando IV e sua mãe Maria de Molina, Pintura de Antonio Gisbert Pérez, 1863.

 

 

 

 

O casamento foi celebrado em Janeiro de 1302, tinha a noiva doze anos e o noivo dezassete. Fernando IV, porém, morreria subitamente dez anos mais tarde. Constança escreveu aos pais a pedir proteção para o filho Afonso, o novo rei, de apenas um ano.

 

A cena política de Castela agitou-se, despertando lutas pela sucessão do trono. Levantava-se o problema da tutoria do pequeno rei e da regência do reino e a situação tornou-se insuportável para a frágil rainha, incapaz de lidar com as intrigas. Passou uma fase muito confusa, cortando inclusivamente relações com a sogra.

 

Sobre isto, dois excertos do meu romance:

 

No início do Outono, chegou à corte um apelo desesperado de Constança. O pequeno rei, de apenas dois anos, encontrava-se em Toro com a avó, que, ofendida com a nora, a proibia de ver o filho! No seu desespero, Constança suplicava o apoio do pai para levar o tio Juan a exigir a custódia completa do filho, contra Maria de Molina!

Dinis censurou Isabel por haver arrastado a filha para o tio aragonês e a rainha, mortificada, escreveu a Constança, pedindo-lhe que viesse ter com eles. A filha, porém, respondeu que tentaria fazer as pazes com a sogra, esperando que esta a autorizasse a entrar em Toro

Toro.

 

 

- Que se passa?

Isabel respondeu num sussurro:

- Tive um sonho…

- Um pesadelo?

- Não sei… Uma mensagem… Ou uma premonição…

Mais uma? Dinis fez esforço por vencer o enfado, pois haveria uma razão forte que a trouxera ali, numa noite tão fria. Acabou por dizer:

- Sentai-vos e contai-me o que vos atormenta!

Isabel obedeceu. Depois de pousar a vela sobre a mesinha ao lado da cama, iniciou o seu relato:

- Há cerca de uma semana, andando para os lados da Azambuja, deparei com um eremita à beira da estrada. Parecia muito perturbado e eu desmontei da minha mula e perguntei-lhe se havia mister do meu auxílio. Ele não respondeu, limitou-se a fixar-me numa tristeza infinita. Já tratei de muitos enfermos e assisti a muitas aflições, mas nunca vira olhos tão tristes. Insisti na minha pergunta. Depois de me fixar durante mais alguns momentos, ele abanou a cabeça e afastou-se de mim sem uma palavra.

Isabel baixou a cabeça e prosseguiu:

- Não mais olvidei aquele olhar. Passado uns dias, tornei ao local, a fim de o procurar. Mas não o encontrei. Perguntei por ele nas aldeias da região, descrevendo-o o melhor que podia. Ninguém parecia conhecê-lo. Indicaram-me alguns eremitas que por ali viviam e fui ter com eles. Mas nenhum era o que eu havia visto. O homem parecia ter-se esfumado, ou sido engolido pela terra… Tentei olvidá-lo. Mas hoje…

Começou a tremer mais violentamente:

- Sonhei com ele…

- Ora, ficastes impressionada com a sua figura…

- No sonho, ele falou comigo. E disse-me… - Olhou-o, muito trágica: - Que Constança havia morrido!

 

Constança faleceu a 18 de Novembro, com apenas 23 anos, vítima de uma febre que a levou em três dias. Sem ter feito as pazes com a sogra, sem ver os pais uma última vez, nem sequer o filho de dois anos.

 

 

Também a 3 de Janeiro, mas no ano de 1312, dá-se um acontecimento, à primeira vista, corriqueiro, mas que se revelaria de importância, pois avolumou as discórdias entre Dom Dinis e o seu herdeiro, o infante Dom Afonso: a sentença do tribunal régio no processo dos herdeiros do 1º conde de Barcelos, Dom João Afonso Telo.

 

A sentença favoreceu Afonso Sanches, um dos genros do falecido e filho ilegítimo de Dom Dinis, que é nomeado mordomo-mor do pai. O outro genro, Dom Martim Gil de Riba de Vizela, apesar de ter sucedido ao sogro no título, tornando-se no 2º conde de Barcelos, foi muito prejudicado nas partilhas. A sentença chocou-o tanto, que se exilou em Castela, morrendo antes do fim do ano. O seu testamento referia que nenhum dos seus bens fosse parar às mãos do cunhado Afonso Sanches, o que, por decisão régia, acabaria por acontecer!

 

O escandaloso favorecimento do filho bastardo Afonso Sanches, por parte de Dom Dinis, terá sido uma das razões para a revolta do príncipe herdeiro Afonso, revolta que desembocou numa guerra civil, amargurando os últimos anos de vida do rei Poeta e Lavrador.

 

Afonso IV Selo.jpg

 

 

 

Dom Afonso IV, filho de Dom Dinis

 

 

 

 

 

 

 

Nota em relação à primeira imagem: não encontrei nenhuma representação de Dona Constança. Deparei, nas minhas pesquisas, com esta imagem de Sansa Stark, uma personagem d'As Crónicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin. Decidi usá-la porque se aproxima muito da Constança que descrevo no meu romance D. Dinis, a quem chamaram o Lavrador.

publicado por Cristina Torrão às 12:26

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As minhas informações sobre Dom Dinis são baseadas na biografia escrita pelo Professor José Augusto de Sotto Mayor Pizarro (Temas e Debates 2008)
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